"A água será disputada", afirma Rafael Zavala, representante da FAO no Brasil

Segundo representante da ONU para a Alimentação e a Agricultura no Brasil, o desafio do país é conciliar a produção de alimentos no combate à fome com a preservação da biodiversidade; e gerir a utilização de água com responsabilidade


Esta semana, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) completou 75 anos. Durante sua existência, por meio de ações como o Programa Mundial de Alimentos, empreende esforços para minimizar a fome no mundo. Atualmente, crises alimentares ocorrem em 55 países, afetando cerca de 158 milhões de pessoas. Em entrevista ao CB.Agro, Rafael Zavala, representante da instituição no Brasil, apontou como maior problema no combate à fome no mundo a distribuição injusta, com desperdício de alimentos e ausência de responsabilidade ao lidar com recursos naturais.


Segundo ele, muito ainda precisa ser feito no Brasil. Apesar disso, ressalta, a nação tem caminhado na direção certa ao implementar iniciativas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). A melhor distribuição de alimentos, avalia Zavala, passa por boas políticas públicas aliadas a leis eficazes e conscientização da população sobre consumo responsável.


Qual é o principal problema a ser enfrentado quando se fala em combate à fome?

Hoje se produz mais do que o que realmente necessitamos, mas o grande problema é a distribuição desigual. As pessoas precisam consumir uma determinada quantidade de alimentos para ter uma vida saudável. O dia mundial da alimentação, comemorado hoje (ontem), tem um lema: cultivar, nutrir e preservar. Esse é o desafio. Inclusive, me chamou a atenção uma fala do Papa Francisco, em Roma, ao dizer que, para a humanidade, a fome não é só uma tragédia, mas uma vergonha. Ele apontou que a fome é causada, principalmente, por uma distribuição desigual dos frutos da terra, uma consequência das mudanças climáticas e conflitos em diversas regiões do planeta. Então, todos somos responsáveis. Acho que é uma mensagem muito clara e forte de que precisamos mudar a produção de alimentos, como os transformamos e consumimos.


Para combater o desperdício é preciso pensar em questões relacionadas à economia, também?

Precisamos de um maior equilíbrio entre políticas públicas e proteção social, mas, também, entre a geração de empregos, principalmente aqueles na área de transformação de alimentos e agricultura familiar. Isso é necessário para fortalecer esse setor, tornando o trabalho no campo mais digno e evitando a migração para as cidades. Se tivermos um marco de políticas públicas e de leis fortalecido e equilibrado, vamos ficar mais perto de atingir a fome zero e o índice zero em perdas e desperdícios.


Como o senhor enxerga a questão do desperdício de alimentos no Brasil?

No mundo, calcula-se que 14% de todos os alimentos produzidos se perdem no desperdício. No caso da América Latina, são 11%. Mas, isso ainda significa muito, são 300kg de alimentos por pessoa perdidos a cada ano. A distribuição desse total se dá da seguinte maneira: aproximadamente 28% se perdem na produção; outros 27%, consumo; 21%, no transporte; cerca de 6%, no beneficiamento e processamento; e 17%, no varejo e distribuição. Há desafios em todas as etapas. Acho que o Brasil tem a infraestrutura institucional para fazer esse desafio mais palpável.


A legislação no Brasil é adequada?

Na região da América Latina, um dos marcos legais mais robustos é o do Brasil. Toda a institucionalização do processo Fome Zero ou do Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar), como também toda a infraestrutura de distribuição — ceasas, comissões de abastecimento, tudo isso é muito robusto. O risco, aqui, é mais localizado em certas regiões. Também precisamos lembrar que é um país latino-americano, muito desigual. Eu estive nos municípios do Paraná e Santa Catarina, com o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) próximo de alguns países da Europa, mas também no Maranhão, Pará, onde o IDH é pior do que em alguns países africanos. Temos que trabalhar esse foco nas regiões mais vulneráveis.


O que a FAO pode fazer para ajudar a combater a desigualdade no país?

A FAO está aqui para fortalecer as políticas públicas em torno da transformação dos sistemas alimentares e acerca da segurança alimentar. Não trabalhamos como ONG, trabalhamos com o Estado e, também, com o Poder Judiciário. Estamos trabalhando com a regularização fundiária, mas, também, com governos estaduais. E orientando onde somos mais úteis, principalmente no Nordeste e Amazônia. Trabalhamos com o Ministério da Agricultura, com a Secretaria da Agricultura Familiar e Cooperativismo, Secretaria de Pesca e o Ministério da Cidadania nos programas de alimentação. Temos uma parceria muito forte com a Agência Brasileira de Cooperação, com o Ministério do Meio Ambiente, com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), entre outros. O desafio no Brasil é mais localizado, com degradação ambiental e crescimento econômico em áreas vulneráveis.


Há uma tradição, no Brasil, de preparar o solo por meio do fogo, o que pode resultar em queimadas descontroladas. Não há uma forma melhor de se fazer isso?

Na Colômbia e em outros países da América e do mundo, isso é um desafio. Significa ter um marco legal especial para essa fronteira agrícola. Geralmente, divide-se o solo apenas como uso agrícola, uso urbano e reserva, não temos uma opção entre reserva e uso agrícola. Temos uma oportunidade para promover serviços agroecológicos e premiar pessoas que estão encarregadas da preservação. Em outros países, há marcos mais rigorosos, mas é um fenômeno que acontece. A legislação brasileira pode ser fortalecida por meio de ajustes. Por exemplo, os camponeses, muitos vivem em região de floresta, temos que inovar para manter essa população e fazer as coisas de maneira diferente. Temos que reinventar para reajustar as políticas públicas dirigidas para essas regiões, não somente no Brasil.


De que forma a preservação ambiental influencia no combate à fome?

Primeiro, temos que fazer um esforço por uma melhor utilização dos insumos, principalmente água e solo. Um desafio que enfrentamos é o nível de degradação do solo e, também, a baixa eficiência dos sistemas de irrigação. A nível latino-americano, um dos grandes desafios é o melhoramento tecnológico para reduzir os grandes consumos d'água. Com as mudanças climáticas e quantidades mais frequentes de secas, a água será um recurso em disputa.


O país está no caminho certo?


Sim, mas temos que trabalhar muito a conscientização do consumidor. Precisamos de consumidores mais informados, conscientes da origem dos alimentos, pois temos que esquecer os alimentos anônimos. É preciso saber, também, sobre a quantidade de emissão de carbono envolvida no transporte dos alimentos na mesa. Aí, é preciso considerar se eles vêm de lugares muito afastados ou é produção local. Isso é importante, uma das saídas é procurar os circuitos curtos, reduzir a distância entre a fazenda e a mesa e, também, dar mais tempo à alimentação. Muitas vezes, morando em cidades grandes, vamos ao mercado e compramos em excesso, o que gera muito desperdício. Comprar menos é uma boa solução contra o desperdício.


Fonte: CB

 
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