A função da crítica - A boa literatura é sempre subversiva

Os bons romances são motores permanentes de mudança social. Os críticos devem não apenas descobrir talentos, mas também detectar a relação entre a fabulação e a realidade social

Existem dois tipos de crítica. Uma universitária, que está mais próxima da filologia, e trata, entre outras coisas, do indispensável estabelecimento das obras originais como foram escritas, e a crítica de jornais e revistas sobre a produção editorial recente, que põe ordem e lança luzes sobre esse bosque confuso e múltiplo que é a oferta editorial, na qual nós, leitores, andamos sempre um pouco perdidos. Ambas estão de capa caída em nosso tempo, e não por falta de críticos, mas de leitores, que assistem a muita televisão e leem poucos livros, e por isso andam muito confusos nesta época em que o entretenimento está matando as ideias, e portanto os livros, e destacam-se os filmes, as séries e as redes sociais, onde prevalecem as imagens.



Os grandes críticos acompanharam sempre as grandes revoluções literárias e, por exemplo, na América Latina, o chamado boom do romance não teria existido sem críticos como os uruguaios Ángel Rama e Emir Rodríguez Monegal, o peruano José Miguel Oviedo e vários outros. Não surpreende, portanto, que na França Sainte-Beuve e na Rússia Vissarion Belinski tenham acompanhado o período mais criativo e ambicioso de suas revoluções literárias e lhes dessem ordem e hierarquias. A função da crítica não é apenas descobrir o talento individual de certos poetas, romancistas e dramaturgos; é também detectar as relações entre essas fabulações literárias e a realidade social e política que expressam transformando-a, o que há nelas de revelação e descoberta e, é claro, de queixa e de protesto.


Aqueles inquisidores e censores que acreditavam que os romances eram subversivos tinham razão, mas não em proibi-los. Eles expressam sempre um descontentamento, a ilusão de uma realidade diferente, por boas ou más razões. O marquês de Sade, por exemplo, detestava o mundo como era em seu tempo porque não permitia que pervertidos como ele saciassem seus gostos, e seus longos discursos, tão aborrecidos, o que pedem é uma liberdade irrestrita para a luxúria e a violência contra o próximo. O que os bons romances não aceitam é a realidade como ela é. E nesse sentido são os motores permanentes da mudança social. Uma sociedade de bons leitores é, portanto, mais difícil de manipular e enganar pelos poderes deste mundo. Isso não está claro nas democracias, porque a liberdade parece diminuir ou anular o poder subversivo dos romances; mas quando a liberdade desaparece os romances se tornam uma arma de combate, uma força clandestina que vai contra o status quo, socavando-o de maneira discreta e múltipla, apesar dos sistemas de censura muito rígidos que tentam impedi-lo. A poesia e o teatro nem sempre são veículos para esse descontentamento secreto que sempre encontra uma via de escape no romance, ou seja, são mais flexíveis à adaptação ao meio, ao conformismo e à resignação. Tudo isso deve ser apontado e explicado pelos bons críticos.

 
Navegue pela web
logo real certo.png
  • Facebook - círculo cinza
  • Twitter - círculo cinza
  • YouTube - círculo cinza
  • Grey Instagram Ícone