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Homens e meninos também sofrem abuso sexual. Eles estão aprendendo a pedir ajuda

Atualizado: Abr 2

Instituição de acolhimento aponta que vítimas de violência sexual do sexo masculino só revelam trauma entre 20 e 30 anos após abusos sofridos na infância ou adolescência


O silêncio dos homens foi a cápsula que o aprisionou em sua própria história, mas, por outro lado, ainda que depois de muito tempo, o ajudou a encontrar um sentido para ressignificar a experiência traumática da juventude. “Achava que eu era o único homem que tinha sido vítima de violência sexual. Só procurei ajuda com 30 e poucos anos”, conta Ângelo Fernandes, fundador da Quebrar o Silêncio, uma associação de acolhimento a adolescentes e adultos do sexo masculino que sofreram abusos sexuais. Em quatro anos de atuação, a entidade sediada em Portugal já recebeu quase 400 pedidos de ajuda de vítimas com percurso semelhante ao de seu presidente.


Ângelo tinha 10 anos quando foi molestado durante vários meses por uma pessoa próxima da família. Guardou o trauma em segredo até ir morar em Manchester, na Inglaterra, onde conheceu a Survivors Manchester, grupo que presta suporte psicológico a homens impactados pela violência sexual. “Levei tempo demais para assimilar o que aconteceu comigo. Mas fiquei pensando: ‘E se eu ainda estivesse em Lisboa? A quem recorreria?’. Então, decidi voltar e criar uma associação em Portugal”, conta. Assim como sua homóloga inglesa, a Quebrar o Silêncio oferece apoio a vítimas e familiares, além de trabalhar com a prevenção de abusos e a sensibilização para a derrubada de mitos que inviabilizam denúncias.


O principal deles é desconstruir a homofobia em torno da masculinidade. “Homens sentem muita vergonha e até sentimento de culpa em relação ao abuso sexual”, diz Ângelo. “Algo agravado por estereótipos de gênero, como as lendas de que homem que é homem não pode procurar apoio, tem de resolver seus problemas sozinhos. Muitos dos que nos procuram são heterossexuais”, comenta. “Eles têm medo de que o abuso seja associado com sua orientação sexual. Depois, em meio ao processo terapêutico, percebem que uma coisa não tem nada a ver com a outra.”


No Brasil, ainda não há instituição de acolhimento específica para homens vítimas de abusos sexuais. Porém, casos de repercussão midiática têm sido expostos a conta-gotas. Em abril do ano passado, o humorista Marcelo Adnet, 39, revelou que havia sido abusado duas vezes na infância. Na primeira, aos 7 anos, por um caseiro do sítio onde passava férias. Depois, aos 11, por um amigo mais velho de sua família. “Foram mais de 25 anos para pensar em tocar nesse assunto publicamente. São várias camadas de dor para lidar”, lembrou Adnet em entrevista ao canal GNT. “Como eu não tive culpa, é uma cicatriz na minha vida, mas hoje não tenho vergonha de falar sobre algo em que eu fui a vítima. Temos de normalizar e encorajar a denúncia. Ser abusado não é crime.”


Segundo o último relatório anual —referente a 2019— do Disque 100, canal de denúncias mantido pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, somente 18% dos registros de violência sexual contra crianças e adolescentes brasileiros referiam-se a vítimas do sexo masculino. A subnotificação de abusos contra meninos se torna ainda maior na adolescência. Enquanto 46% dos casos atinge vítimas do sexo feminino entre 12 e 17 anos, a proporção de garotos da mesma faixa etária que denunciam é de apenas 9%. “Por causa de nossa cultura patriarcal e machista, há uma estigmatização de garotos que sofrem abuso sexual”, diz Flávio Debique, gerente de proteção infantil e incidência política da ONG Plan International Brasil, que atua na prevenção de violências contra crianças. “É como se o abuso retirasse a masculinidade do menino. Com receio de o filho ser visto como homossexual, a família prefere não denunciar.”


Após revelar sua história, o humorista recebeu a ligação de um amigo, contando ter sido vítima de abusos parecidos, e foi alvo de ataques nas redes sociais que debochavam de sua sexualidade. “Quando o menino é abusado, tem gente que diz: ‘Ah, você é baitola, tomou porque gostou’. Eu ouvi muito isso. Existe o medo da ridicularização, das ofensas homofóbicas. [Abusadores] ainda usam essa rasteira como forma de constranger a vítima”, lembrou. “O agressor fica protegido, no fim das contas. Procurei estabelecer um limite aos ataques nas redes sociais, em respeito a outras pessoas que também sofreram abuso.”


De acordo com um levantamento produzido pela Quebrar o Silêncio, casos como o de Adnet se encaixam na média de idade em que adultos do sexo masculino decidem buscar amparo psicológico para tratar dos traumas na juventude. “A maioria dos homens que nos procura sofreu abusos entre 20 e 30 anos atrás”, afirma Ângelo Fernandes. “Violência sexual na infância é uma experiência profundamente traumática para a criança. Ela pode passar a vida esperando que outras pessoas façam o mesmo. Contudo, não é uma fatura vitalícia”, adverte. Segundo ele, com intervenção especializada, é possível minimizar os sintomas e oferecer ferramentas para a vítima lidar com o trauma.


Campanhas educativas e acolhimento para vítimas


Um dos episódios mais marcantes da Survivors Manchester, inspiradora da Quebrar o Silêncio, foi a atuação no escândalo de abusos sexuais no futebol inglês. A entidade não só acolheu centenas de vítimas de uma rede de treinadores pedófilos, como também ajudou a fechar um acordo milionário com o Manchester City, que se comprometeu a pagar indenizações aos homens que foram abusados por antigos profissionais do clube. Denúncias vieram à tona em 2016, depois que o ex-lateral Andy Woodward descreveu ao The Guardian os abusos cometidos por seu ex-técnico, Barry Bennell, condenado a mais de 30 anos de prisão por molestar 52 atletas com menos de 13 anos.


“O abuso sexual de meninos é muito comum, ainda mais no futebol”, contou Woodward ao EL PAÍS. “Existem diferentes razões para que um menino ou uma menina não revele o que sofreu. É difícil para todos. Mas, no caso dos garotos, há um enorme tabu. As crianças do sexo masculino têm mais dificuldade de falar sobre isso. Muitos pensam: ‘Ninguém vai me ouvir porque eu sou um menino, devo me comportar como homem. E isso é vergonhoso para mim’. Foi algo que eu senti. O abusador exerce poder e controle. Seu impacto na vida de uma criança é aterrador.”


Devido à dor digerida em silêncio, Woodward disse ter tentado se suicidar várias vezes, uma consequência extrema, porém, não tão rara para vítimas de abusos. Em 2017, nos Estados Unidos, a morte do ex-jogador de hóquei David Gove por overdose de heroína destapou o segredo que ele guardava por mais de duas décadas. Gove foi molestado ao longo de três anos por seu primeiro treinador, Robert Richardson. Contou à mãe sobre os abusos aos 12, mas preferiram não denunciar o técnico por medo de brecar a ascensão da carreira. Em 2005, Richardson recebeu acusação por abusar de outro garoto. Acabou absolvido no processo, o que fez com que Gove entrasse em depressão.


Assim que encerrou a carreira no hóquei, ele registrou queixa contra Richardson e chegou a prestar depoimento à Justiça em 2014. Porém, o processo foi encerrado após sua morte. Richardson jamais falou sobre as denúncias, mas sua defesa alegou nos tribunais que ele é inocente. A história do ex-jogador se assemelha à de Chester Bennington, vocalista da banda Linkin Park, que, três meses depois da overdose que vitimou Gove, foi encontrado morto em sua casa no sul da Califórnia. Ele se suicidou após longos anos lutando contra o alcoolismo e a dependência química. O gatilho para o uso de drogas, como relatou em entrevistas antes de morrer, foram os abusos que sofrera aos sete anos de um amigo mais velho.


Não bastassem os entraves culturais que perpetuam o silenciamento, a quebra do tabu em torno do abuso sexual contra vítimas do sexo masculino ainda esbarra em limitações institucionais. Até 2009, por exemplo, a legislação brasileira não considerava homens como vítimas de estupro. Antes da alteração no Código Penal, que reformou o artigo 213 de “constranger mulher” para “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”, o estupro de homens era enquadrado como atentado violento ao pudor, com penas menores.


Em que pese a mudança na lei, a ideia de que apenas mulheres são vítimas de abuso sexual ainda está enraizada até mesmo nos órgãos públicos. Em 2018, o Ministério do Esporte, em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres (SPM), lançou uma campanha de combate à violência sexual contra as atletas, sem nenhuma menção a esportistas do sexo masculino. “O programa tem como finalidade chamar a atenção da sociedade para o assédio e a violência contra as mulheres”, afirmou no lançamento do programa o então ministro do Esporte, Leonardo Picciani. No ano anterior, uma reportagem do EL PAÍS havia registrado que pelo menos 48 garotos denunciaram assédios e abusos em escolinhas e clubes de futebol.

A falta de centros de acolhimento específicos para vítimas do sexo masculino também contribui para desencorajar denúncias. No Brasil, ocorrências de abuso e estupro geralmente são direcionadas a delegacias especializadas da mulher ou de proteção à criança e ao adolescente. Alguns Estados como o Distrito Federal têm apostado nos Centros de Especialidade para Atenção às Pessoas em Situação de Violência Sexual, Familiar e Doméstica (Cepavs). No entanto, sem estabelecer o foco no público masculino. “Uma rede acolhimento com distinção para mulheres pode afastar alguns homens. É necessário identificar esses centros como locais de apoio à vítima. Mas, além de reformular o atendimento, é preciso haver uma grande campanha educativa. Se a informação não chegar aos homens, eles nunca saberão a quem recorrer”, explica Ângelo Fernandes.


Em Portugal, a Quebrar o Silêncio conta com subsídio do Governo para prestar serviço gratuito a dezenas de vítimas e ainda colabora com associações de outros países. De acordo com seu fundador, a instituição já foi procurada por entidades não governamentais para reproduzir a iniciativa no Brasil. As conversas, entretanto, não avançaram. O primeiro passo, insiste Ângelo, é atacar a cultura do silêncio. “Parece simples, mas temos de repetir o básico até que a sociedade entenda de uma vez por todas que homens e meninos também são vítimas de abuso sexual. Eles precisam saber que podem pedir ajuda.”

 
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