Como o crime organizado tem explorado benefícios dado as igrejas para operar seus negócios ilegais

Amparados nas leis de liberdade de culto, algumas igrejas e líderes religiosos nas Américas abusam da confiança de seus fiéis


“Estou cansada das drogas, das terapias e tudo o que me fizeram”, diz uma mulher apoiada em duas muletas. O pastor Jorge estava agachado na beira do palco e lhe estendia o microfone. Em seguida, o aproximou de si mesmo: “Mas hoje Cristo veio com sua mão poderosa, com um sopro a libertou das muletas. Dêem glória a Deus! Pegue suas muletas, levante-se da cama e ande”, vociferou o pastor no auditório.



JORGE MERCEDES CEDEÑO. FOTO: EL TIEMPO


O vídeo que documenta o culto de cura, publicado no YouTube em 2012, mostra em seguida outro fiel que, exibindo seu braço esquerdo, pega o microfone. “Eu tinha uma dor forte aqui. Quando o pastor orou, senti um calor tremendo e ele começou a sacudir”, diz.


O “Pastor Jorge” que despertava tanta devoção dos fiéis é Jorge Mercedes Cedeño, que tinha sua própria igreja chamada “El Rugido del León” (O Rugido do Leão), no leste da República Dominicana.


O Rugido do Leão também estava presente na Colômbia, e o dominicano visitou o país em diversas ocasiões como pregador convidado, segundo notícias da época. O pastor também era membro da ONG Organização Paz Colombiana, presidida pelo pastor colombiano Orlando Arce Ortiz, que dizia ser bispo anglicano e era líder de outra igreja no país.


Os dois líderes foram presos pela polícia colombiana em maio de 2015, suspeitos de lavagem de dinheiro através das igrejas e da ONG. A Procuradoria-Geral da Colômbia mais tarde também acusou o “Pastor Jorge” de “ter usado seu papel de líder religioso para adquirir bens no exterior em troca de grandes quantidades de dinheiro que foram enviadas ao seu país como supostas ofertas de fiéis”. Arce Ortiz foi acusado de administrar a logística, a documentação e as conexões políticas nas operações de lavagem de dinheiro.


Ambos se declararam responsáveis por administrar as finanças e comprar propriedades para Los Urabeños, um grupo liderado por Dairo Antonio Úsuga David, conhecido como “Otoniel”. Atualmente chamado de Clã do Golfo pelo governo colombiano, trata-se de uma das organizações criminosas mais perigosas da Colômbia, com cerca de 1600 membros e responsável por centenas de sequestros e assassinatos de civis inocentes, segundo informações da polícia.

Os dois homens criaram uma religião e enganaram fiéis, que acreditavam honestamente em seus pastores. Leis brandas ou inexistentes que protegem religiões permitiram que essa rede internacional saísse impune por vários anos.


O Rugido do Leão é apenas um de numerosos casos no continente que refletem a forma que igrejas de bairro e algumas grandes congregações religiosas usaram portos seguros para esconder dinheiro de origem ilícita e acumular fortunas, usando as doações de seus seguidores como fachada. São paraísos de dinheiro e fé.


Em uma investigação internacional de um ano, a Columbia Journalism Investigations (CJI), o Centro Latinoamericano de Jornalismo Investigativo (CLIP), OCCRP [sigla em inglês para o Projeto de Relatório sobre Crime Organizado e Corrupção, consórcio de centros de investigação fundado em 2006], e dez meios de comunicação da região encontraram diversos outros casos – alguns comprovados e outros em investigação – que sugerem que há conexão entre igrejas e/ou líderes religiosos com atividades financeiras ilícitas.


A colaboração jornalística produziu uma base de dados com casos judiciais recentes que relacionam lavagem de dinheiro e delitos adjacentes – como tráfico de drogas – com grupos religiosos de quaisquer crenças e denominações nas Américas. Esta documentação resultou de buscas sistemáticas em fontes especializadas online, fontes públicas e entrevistas realizadas pelos colaboradores com autoridades judiciais em nove países. Esse foi o ponto de partida desta história.

O fenômeno criminoso refletido pela base de dados não é, de forma alguma, representativo de todas as igrejas e organizações religiosas do continente americano. Muitos líderes religiosos prestam serviços valiosos para suas comunidades. No entanto, a análise dos casos confirmou que várias congregações estão abusando da confiança de seus fiéis enquanto usam seus espaços de culto para cometer e esconder crimes.


“Ao longo dos anos, instituições religiosas foram usadas repetidamente para lavar dinheiro”, afirma Mark Califano, ex-vice-procurador de justiça dos Estados Unidos e atual chefe legal do escritório Nardello & Co. “E o que permitiu que isso acontecesse foi a posição especial e protegida de que elas gozam na maioria das sociedades” completa.


Em linha, outro especialista no tema, Warren Cole Smith, CEO da Ministry Watch, uma organização evangélica norte-americana independente e sem fins lucrativos explica que as igrejas, assim como outras atividades nas quais circula dinheiro vivo, têm certas vulnerabilidades.

“Muitas dessas organizações também arrecadam dinheiro internacionalmente. E a arrecadação de dinheiro em espécie, especialmente em outros países, torna tudo ainda mais complicado”, afirma Cole Smith.

No continente americano, existem leis e práticas que buscam garantir uma proteção especial à liberdade religiosa para evitar possíveis ingerências indevidas do Estado em seus assuntos. Por esse motivo, limita-se a capacidade que qualquer Estado tem de investigar igrejas suspeitas de práticas irregulares. Isso pode tornar a situação especialmente favorável para aqueles que abusam dessas normas brandas para cometer crimes financeiros.



JUAN ALBERTO ORTIZ LÓPEZ, CONHECIDO POR SEU PSEUDÔNIMO “CHAMALÉ”, A CAMINHO DE SER EXTRADITADO PARA OS ESTADOS UNIDOS. FOTO: NÓMADA.


A vigilância de organizações religiosas por governos de países laicos como Guatemala, Estados Unidos, Peru e Brasil é mínima, segundo descobriu esta investigação após revisar a legislação destes e de outros países americanos. Nesses lugares, as igrejas gozam de isenções de impostos e não são obrigadas a prestar contas ao Estado. Como os estados não interferem em seus assuntos, as entidades religiosas têm maior liberdade para administrar suas finanças do que outras instituições sem fins lucrativos.


“Através de diferentes mecanismos, nós acabamos, sem querer, criando uma condição de intocabilidade a essas entidades nos Estados Unidos”, afirma Marci A. Hamilton, professora de estudos religiosos da Universidade de Pennsylvania e crítica da liberdade religiosa extrema.

“A razão pela qual grupos religiosos são tão convenientes para lavagem de dinheiro é que não precisam especificar nas declarações de impostos de onde o dinheiro veio nem o que fazem com ele”, afirma Hamilton. “Seus espaços públicos têm uma certa qualidade de caixa preta”.

Emilio Guerberoff, fiscal do foro Penal Econômico Federal da Argentina, afirmou ao Infobae, colaborador argentino da investigação: “Pode haver um choque de interesses entre a liberdade de culto religioso e a prevenção à lavagem de dinheiro, porque, ao receber doações anônimas através de dízimos, cujas origens podem não ser justificadas, as igrejas podem se tornar uma máquina perfeita de lavagem de dinheiro, sem que o dinheiro pareça ter uma origem criminosa, já que supostamente vem de seus seguidores”.


A igreja imaculada


Nos poucos casos em que líderes religiosos proeminentes foram condenados por lavagem de dinheiro, os chefes de suas organizações – e, na verdade, as próprias igrejas – raramente são igualmente investigados.


Em Utah, nos Estados Unidos, Jacob e Isaiah Kingston, membros de alto escalão de uma ramificação mórmon fundamentalista emergiram de uma batalha judicial com sentenças muito reduzidas após a maior fraude da história do estado. Um processo criminal federal recente em Salt Lake City, Utah, revelou um esquema fraudulento de mais de US$500 milhões, no qual o dinheiro era lavado através das contas da igreja, segundo reportagem da Columbia Journalism Investigations, membro desta colaboração.


O Serviço de Impostos Internos dos Estados Unidos (IRS) estimula a fabricação de combustível renovável, oferecendo incentivos fiscais para aqueles que o produzem no país. O esquema baseado em Utah consistia em simular a produção de combustível renovável, quando na verdade os Kingstons estavam comprando e vendendo o mesmo combustível renovável por meio de uma rede de empresas nacionais e internacionais. Após essa etapa, a empresa de Kingston, Washakie Renewable Energy, apresentava declarações falsas que a qualificava a receber pagamentos na forma de cheques do Tesouro dos Estados Unidos por seu trabalho de “produção” do combustível.

A Ordem, também conhecida como Sociedade Cooperativa do Condado de Davis, foi fundada em 1935 e é atualmente dirigida por Paul Kingston. Sua igreja, a Igreja de Cristo dos Últimos Dias – não confundir com a principal ramificação da igreja mórmon, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – é uma comunidade religiosa bastante unida. Estima-se que tem entre 2 mil e 6 mil membros que vivem na região de Salt Lake City. O grupo é conhecido por ser um dos poucos ramos mórmons que ainda pratica a poligamia.


Em 2019, os irmãos Jacob e Isaiah Kingston, dois altos membros da Ordem, se declararam culpados de defraudar o governo federal dos Estados Unidos em US$ 511 milhões em pedidos indevidos de créditos de energia renovável. Eles foram condenados em abril de 2020.


Membros da organização implicados tiveram seus bens confiscados pelo Estado, mas receberam uma sentença mais curta em troca de testemunhar contra um cúmplice que não pertencia à igreja. Trata-se de Lev Dermen, um armenio-americano veterano do crime organizado com laços com altos funcionários dos governos da Turquia e de Belize e com funcionários públicos corruptos dos Estados Unidos.


Ganhos dessa fraude foram lavados por meio da igreja e de outras entidades, e correu por meio de contas em todo o mundo vinculadas às inúmeras conexões de Dermen em países como Turquia, Estados Unidos, México e Belize.


À medida que o caso se desenrolava na Corte Federal, antigos membros do grupo continuaram a revelar informações sobre outras fraudes. A seita religiosa foi acusada de roubar fundos de programas federais como a Solicitação Gratuita de Auxílio Federal para Estudantes (FAFSA) e o Programa de Alimentos para o Cuidado de Adultos (CACFA).

No passado, membros da Ordem também foram condenados por fraude à assistência social e por incesto.

Ex-fiéis consultados pela CJI, colaboradora da investigação, associam esses delitos a uma doutrina conhecida como “sangrar a besta”, na qual os fiéis são incentivados a defraudar agentes externos ao grupo, como o governo dos Estados Unidos. Kent Johnson, porta-voz da Sociedade Cooperativa do Condado de Davis negou veementemente que sigam essa doutrina.


“A Cooperativa tem uma longa história de justamente o contrário (…) seus membros se veem frequentemente sob maior escrutínio, sujeitos a auditorias e investigações nove vezes mais que a média da população”, afirmou Johnson, citando uma pesquisa da igreja.


Os dois irmãos Kingston condenados nesse caso mais recente aceitaram a acusação que descreve uma conspiração de lavagem de dinheiro que envolveu a igreja e outras entidades relacionadas à Ordem. Durante o julgamento, não ficou provado se a Cooperativa – como organização – teria aprovado o uso de suas contas para cometer fraude.


Quando a CJI perguntou à igreja sobre seu papel no esquema de fraude, o porta-voz afirmou: “Que eu saiba, qualquer dinheiro pago a empresas de propriedade de membros da Cooperativa foi por serviços legítimos prestados ou para devolver o dinheiro emprestado ao Sr. (Jacob) Kingston ou entidades relacionadas à WRE”.


Mesmo os documentos judiciais já revelando origem ilícita de alguns dos fundos da Ordem, os procuradores pretendem investigar ainda mais a fundo. O escritório da procuradoria dos Estados Unidos em Salt Lake City acredita que os próximos passos da investigação “envolverão rastrear e seguir os ingressos através dessas contas bancárias de entidades relacionadas à Ordem”, de acordo com sua porta-voz, Melodie Rydalch.


Até o momento, a Ordem segue tendo suas proteções constitucionais garantidas assim como qualquer grupo religioso com status oficial de igreja no país.


Dois membros do alto escalão da Ordem que usaram contas bancárias da igreja para lavar o dinheiro da fraude de energia renovável estão cumprindo pena. Nem o líder máximo do grupo, Paul Kingston, nem a própria igreja foram implicados legalmente. A igreja segue aparecendo na lista de igrejas isentas de impostos do Serviço de Impostos Internos dos Estados Unidos (IRS). Perguntado sobre isso, o IRS respondeu que a lei federal impede a instituição de comentar publicamente sobre seus contribuintes.


Portanto, a Igreja de Cristo nos Últimos Dias pode continuar atestando a seus doadores que é uma organização isenta de impostos registrada no IRS e que, por se tratar de uma igreja, pode receber doações sem precisar prestar contas de suas finanças ao governo.


A santa defesa


As provas que levaram os dois pastores da República Dominicana e da Colômbia a serem condenados – mencionados no início da reportagem – foram meticulosamente recolhidas desde março de 2013 por procuradores colombianos de atuação contra o crime organizado.

Segundo documentos apresentados em audiência, a dupla usou do pretexto das doações dos fiéis em múltiplas ocasiões para explicar por que Jorge Mercedes Cedeño levava grandes quantias de dinheiro em espécie. Em uma ocasião, a polícia de El Poblado, um bairro rico de Medellín, segunda maior cidade da Colômbia, deteve o “Pastor Jorge” da República Dominicana quando descobriu que este carregava 300 milhões de pesos colombianos em espécie (cerca de US$ 110 mil dólares na época). Mas ele foi rapidamente liberado depois que Arce Ortiz ligou para seus contatos na polícia e corroborou a versão de seu companheiro pastor de que o dinheiro provinha de doações.


Apesar da solidez do caso, quando chegou o momento da sentença, os advogados de defesa dos dois homens trouxeram a tona suas credenciais religiosas, pedindo clemência. O advogado de Arce Ortiz pediu que sua “qualidade de bispo da Igreja Anglicana” fosse levada em conta a seu favor. Mas Arce Ortiz nunca foi bispo da corrente principal da igreja anglicana – fato que nem a corte nem a imprensa tinham em conta na época.


O colombiano Arce Ortiz, conhecido como “El Obispo” (O Bispo), se apresentava como um líder ativo na igreja de Víctor Manuel Cruz Blanco. Trata-se da Provincia Iglesia Anglicana del Caribe y La Nueva Granada, uma denominação derivada da igreja anglicana cuja história remonta a uma pequena paróquia em Indiana. A igreja informou publicamente ter excomungado Arce Ortiz por heresia e falso arrependimento em fevereiro de 2012 – um ano antes do início das investigações pelas autoridades colombianas.


Outra credencial que Arce Ortiz apresentou na corte como prova de suas afiliações religiosas – um “cartão” emitido pela Igreja Anglicana Misionera Mundial – refere-se a uma igreja que parece ter sido criada por ele próprio.


Por sua vez, os advogados do “Pastor Jorge” argumentaram que o juiz deveria mostrar clemência com o acusado, uma vez que ele não era “um homem com tendências a cometer delitos”, baseado no fato comprovado de que ele é “um missionário evangelista em seu próprio país”.

Os investigadores tinham vastas provas de que ambos os homens aproveitavam-se de suas funções de pastores das congregações, evangelizando e dirigindo missões humanitárias. Mesmo assim, funcionários públicos dominicanos esforçaram-se para mostrar que Jorge Mercedes Cedeño nunca esteve relacionado com o estabelecimento religioso mencionado no caso.

“Pode ser que tenha tido algo muito pontual, individual, alguma imitação, mas ele não faz parte de nenhuma das igrejas organizadas”, afirmou Francisco Domínguez Brito, então Procurador-Geral da República Dominicana, em uma conferência de imprensa em 2015, logo após o pastor ter sido condenado na Colômbia.


Segundo as normas jurídicas e sociais da maioria dos países da América, incluindo a República Dominicana, não é exigida nenhuma afiliação ou comprovação formal para verificar se líderes religiosos pertencem, de fato, a uma igreja, a não ser as normas internas das entidades.


Narcos, políticos e pastores


Esta investigação também constatou que na costa de San Marcos, na Guatemala, onde o narcotráfico é poderoso e constitui uma das principais atividades econômicas, existe uma estreita relação entre esse fenômeno e alguns pastores evangélicos.


Há narcotraficantes evangélicos que financiam igrejas, que são eles mesmos pastores dessas igrejas ou que recrutam pastores para utilizá-los em suas organizações.


Juan Alberto Ortiz López, conhecido como “Chamalé”, dominou o tráfico de drogas na costa pacífica da Guatemala por duas décadas. Menos conhecido era seu papel de mecenas religioso. Os pastores a quem enviava dinheiro ou materiais para erguer novos templos lhe deram o apelido de “Irmão Juan”.


Ele foi especialmente generoso com as igrejas Torre Fuerte, uma rede de igrejas do pastor Noé Mazariegos que se estendia de San Marcos até o estado mexicano de Chiapas. Segundo a procuradoria da Guatemala, Mazariegos, conhecido como “O Apóstolo”, fez parte da organização de Chamalé e foi acusado de ordenar o assassinato de seu cunhado e de outras pessoas que o acompanhavam. Chamalé e sua organização mafiosa exportaram ao menos 144 mil toneladas de cocaína, segundo a justiça estadunidense, que o condenou em 2014.

Fonte: Carta Capital

 
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