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Covid-19: epidemiologistas lançam dúvidas sobre uso de máscaras ao ar livre

Artigo científico questiona a obrigatoriedade do uso do acessório em áreas externas sob a justificativa de que a maioria dos contágios ocorre em locais fechados. Na mesma publicação, outro texto enfatiza que, em uma pandemia, qualquer risco de infecção precisa ser considerado


Na semana em que os Estados Unidos suspenderam a obrigatoriedade do uso de máscara ao ar livre para pessoas vacinadas contra a covid-19, um artigo publicado na revista The British Medical Journal coloca em dúvida a necessidade do equipamento em ambientes externos, independentemente da imunização. Citando estudos epidemiológicos, os autores argumentam que o risco de transmissão por Sars-CoV-2 em locais abertos é baixo demais — menos de 10% — para justificar sua necessidade. Para os epidemiologistas norte-americanos Muge Cevik, Zeynep Tufecki e Stefan Baral, das universidades de St. Andrews, da Carolina do Norte e de Johns Hopkins, o importante é reforçar a importância de cobrir adequadamente o nariz e a boca em ambientes internos.


“Consistente com a baixa concentração de Sars-CoV-2 ao ar livre devido à ventilação natural, a transmissão externa contribui muito pouco para as epidemias de covid-19”, alegam. Um dos estudos que os autores utilizam para justificar a dispensa da máscara em ambientes externos foi divulgado em novembro, na plataforma de pré-publicação MedXiv. O trabalho, da Universidade de Canterbury, na Austrália, fez um apanhado de 35 pesquisas que avaliaram a transmissibilidade do vírus ao ar livre. “A revisão encontrou muito poucos exemplos de transmissão externa de covid-19 no dia a dia entre 25 mil casos da doença considerados, sugerindo um risco muito baixo”, aponta o autor, Mike Weed, professor de políticas de ciências aplicadas. Porém, ele ressalta que esse risco aumenta quando há aglomerações, como eventos públicos.


Cevik, Tufecki e Baral argumentam, no BJM, que os custos da implementação de políticas que obrigam o uso de máscaras ao ar livre são maiores que os benefícios, já que não há evidências científicas sobre um alto risco de transmissão do vírus em ambientes externos. Eles também defendem que os esforços dos formuladores de políticas públicas se concentrem nos contágios em locais fechados.

“O isolamento social contribui significativamente para a morbidade e a mortalidade precoce e tem maior importância para a saúde e o bem-estar do que muitas vezes é percebido. Isso também pode resultar em algumas pessoas se reunindo em ambientes fechados ou evitando exercícios, um componente crucial da saúde física e mental”, escreveram. “Portanto, concentrar a energia na prevenção da grande maioria das infecções — que ocorrem em ambientes fechados —, ao mesmo tempo em que permitir que o exterior seja um lugar onde a energia das pessoas é recarregada por meio de ar puro, atividade física e conexão social, pagaria grandes dividendos do ponto de vista da saúde pública. Em última análise, os custos das políticas que visam o uso regular de máscaras ao ar livre devem ser comparados com seus benefícios limitados.”


Para Simon Clark, professor de microbiologia celular da Universidade de Reading, no Reino Unido, as “evidências para obrigar o uso de máscara em ambientes abertos permanecem fraca e circunstancial”. “A fim de obter a adesão do público e manter sua confiança enquanto a pandemia avança, quaisquer restrições novas ou contínuas nas vidas das pessoas precisam ser baseadas em ciência sólida, em vez de suposições”, defende.


Professor de medicina na Universidade de East Anglia, também no Reino Unido, Paul Hunter destaca o resultado de um estudo publicado em fevereiro, no The Journal of Infectious Diseases, que avaliou pesquisas sobre a transmissão ao ar livre. “A transmissão em ambientes internos é cerca de 19 vezes maior que nos externos”, sustenta. “Há outras boas razões para não usar máscaras em ambientes externos. Se a máscara fica molhada devido à chuva ou à condensação no clima frio, ela não filtrará as partículas adequadamente. Então, poderá ser menos efetiva quando você estiver em ambientes internos.”



Multidões


Os argumentos dos autores do artigo norte-americano não são, contudo, unanimidade. Na mesma edição, o The British Medical Journal publicou opinião contrária, escrita por Babak Javid, Dirk Bassler e Manuel B. Byrant, da Universidade da Califórnia (os dois primeiros) e da Universidade de Zurique, na Suíça. No texto, os pesquisadores alertam que, embora o risco de transmissão seja muito maior em ambientes fechados, é preciso incentivar o uso da máscara também nos abertos.

“A infecção por Sars-CoV-2, provavelmente, depende da quantidade de partículas infecciosas inoculadas, que, por sua vez, depende, principalmente, de dois fatores: a concentração do vírus no ar e a duração da exposição”, alegam. “Situações em que as pessoas compartilham o ar com menos diluição (devido ao vento e ao movimento) por um tempo prolongado, como em multidões e na fila, apresentam algum risco de transmissão, embora esse risco seja menor do que em ambientes fechados devido à diluição muito maior e rápida ao ar livre e à falta de acumulação.” Para os autores, mesmo que o risco ao ar livre seja mais baixo, a utilização da máscara “trará benefícios na redução de riscos durante a fase pandêmica da covid-19”.


"Com segurança"


Na terça-feira, a diretora do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, Rochelle Walensky, afirmou que o órgão tem nova orientação sobre uso de máscaras em áreas externas para pessoas que receberam duas doses da vacina. Eles não precisarão usar o equipamento ao ar livre, nem em jantares com amigos e familiares. “A ciência mostra que é possível fazer isso com segurança”, disse, em coletiva de imprensa.


Palavra de especialista


Realidade brasileira exige a proteção


“Os autores alegam que as restrições impostas pela pandemia já limitaram conexões sociais e que a obrigatoriedade do uso de máscaras ao ar livre pode funcionar como ‘impeditivo’ para que as pessoas se reúnam nesse tipo de local. Isso, segundo o artigo, pioraria o isolamento social e a falta de atividade física, além de fazer com que os indivíduos optassem por se reunir em lugares fechados e sem o uso de máscaras, o que seria bem pior.

Entretanto, ao extrapolar para a realidade brasileira, precisamos analisar que estamos ainda em um período com alta transmissibilidade, com serviços de saúde sobrecarregados e com baixa cobertura vacinal. Mesmo os indivíduos já imunizados receberam vacinas com eficácia global menor, o que tende a reduzir o risco de formas graves e críticas, mas que não impede o desenvolvimento da doença. Portanto, ainda devemos reforçar a necessidade do uso universal de máscaras.

O mais importante do artigo é que os autores reforçam que os riscos de transmissão em ambientes fechados são muito elevados. Ou seja, pequenos encontros familiares, festas e reuniões, se inevitáveis, deveriam ser feitas ao ar livre. As pessoas que usam máscara na rua como ‘obrigação’, mas promovem encontros em casa com amigos, estão se expondo a um risco de contágio muito elevado e contribuindo para a manutenção da cadeia de transmissão e de surgimento de novas cepas.”

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