Da gênese da humanidade ao apocalipse da sociedade por meio do racismo


Para os iorubás, tudo que há no mundo visível e invisível é dotado de uma força que o sustenta e o faz existir. Essa força se encontra em toda parte, é vida e energia. Força que fica fora da experiência dos olhos do corpo, ainda que continuamente experimentada. É misteriosa e mantida por um sistema invisível de força e energias. É essa força, chamada "axé" na língua nagô ou iorubá, que assegura a existência dinâmica, permitindo o acontecer e o devir.


Sem axé, a existência ficaria paralisada, desprovida de toda possibilidade de realização. Ela é o princípio que torna possível o processo vital. O que isso tem a ver com a gênesis da humanidade e o apocalipse da sociedade? Ora, se paleontólogos, arqueólogos, antropólogos, entre outros cientistas, quase todos brancos, buscam respostas diferentes para a gênese da humanidade, e todas essas respostas os levam para o continente africano. Portanto, África é o berço da humanidade!


Segundo declara Laurent Duret, cientista atuante na França (Lyon): "Ainda que o DNA das mulheres negras de hoje não tenha "todas as variações [genéticas] possíveis para cada tipo de ser humano" na Terra e que o 'Eve gene' não exista, o DNA mitocondrial de cada ser humano descende de uma mulher africana que viveu há cerca de 200 mil anos. Além disso, como a espécie se originou na África antes de migrar para outras regiões, as populações desse continente têm a maior diversidade genética".



Assim, a afirmativa de Angela Davis se confirma: "Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela". Tendo isto "escurecido" seguimos. Onde quero chegar com essa "escrevivência" (como define Conceição Evaristo)?


No Brasil, o que temos vivido é uma constante violência racial, onde apenas por sermos negros/as já nos colocam como alvo das mais diversas violações dos direitos humanos; do reconhecimento facial ao linchamento público por reivindicar o pagamento de salário atrasado ou por cobrar por um serviço que não foi pago via app. Morremos baleados na porta de casa, em frente à esposa e aos filhos, no mercado, nas periferias, o que nos coube no direito à cidade.



Desde o nutricídio (expressão que tem como sinônimo o genocídio alimentar), criada pelo norte-americano Llaila Afrika. Ele nos alerta que o agronegócio determina a nossa alimentação, à precariedade de acesso a políticas públicas básicas. Promovem o flagelo da extrema pobreza e dos salários baixos e, assim, a população negra e periférica, por meio da insegurança alimentar, desenvolve muitas comorbidades. Alinhada a essa necropolítica alimentar, social e territorial, ainda temos que lidar com a usurpação de nossos conhecimentos em fitoterápicos e alimentos que ainda são preservados nos terreiros de matriz africana que sofrem com depredações. Uma constante e exaustiva investida em apagar nossas memórias e contribuições históricas; estratégias para o apagamento de nossa identidade.


E, com tudo isso, tem a "cara de gente branca" dizendo que nós negras e negros só falamos de racismo. Não! O que estamos falando é que somos seres humanos, que movemos esta sociedade e que somos guardiões de um mundo que está sendo destruído em nome do desenvolvimento neoliberal, antagônico a nossa filosofia do bem viver. O racismo ambiental não está apenas nos exterminando, está exterminando a todos; com a Terra devastada, não existirá seres humanos, nem negros e nem brancos.



"Tudo que nós tem é nós!", canta Emicida. Já não acreditamos mais em um caminho apontado por quem não respeita nossa cultura, nossa arte, nossa fé; estamos nos recuperando mesmo que na "dororidade", segundo Vilma Piedade; mas ainda no amor pela vida universal. Resistimos com a força invisível, sagrada de toda divindade, chamada Axé.

Seguimos nos organizando em uma coalizão negra denunciando que, com racismo, não há democracia, não há natureza, não há mundo. Portanto, se somos a gênese, o apocalipse do racismo está próximo de ser exterminado, em nome de Zumbi, Dandara, Marielle, Moïse e tantas e tantos heróis e heroínas que tombaram abrindo caminhos para que uma nova geração possa recomeçar uma sociedade igualitária, sem racismo. Com a força do Axé, as sementes germinarão com o poder de salvaguardar o que mais temos de precioso, a vida humana. O vento é o devir!


Leila Negalaize Lopes - Jornalista, produtora cultural, ativista afrolésbica

da rede Sapatá, integrante da Coalizão Negra por Direitos

Fonte: CB

1 visualização