Decotelli diz a interlocutores que caiu por mistura de 'racismo e antibolsonarismo'

Ainda envolto na tempestade gerada pela descoberta de informações falsas em seu currículo acadêmico, o professor Carlos Alberto Decotelli tem afirmado a interlocutores que sua passagem fugaz pelo Ministério da Educação seria fruto de dois elementos: racismo e "perseguição ideológica" contra o presidente Jair Bolsonaro no meio acadêmico.


Decotelli tem usado o termo "imperfeições curriculares" para se referir às informações falsas presentes em seu currículo Lattes e as acusações de plágio em sua dissertação de mestrado.


À reportagem, Decotelli informou que "está impedido de dar entrevistas" no momento. A pessoas próximas, no entanto, ele tem dito que a nota da FGV teria sido "plantada para destruir um professor com mais de 20 anos de trabalho por perseguição política".



Perseguição


Segundo a narrativa de Decotelli, a posição da FGV teria sido fruto de uma suposta oposição ao governo Bolsonaro.


O quase-ministro, que não chegou a assumir o cargo nos cinco dias entre a nomeação e a revogação de seu nome, tem usado o termo "perseguição ideológica contra Bolsonaro" para explicar o que aconteceu.


Para ele, a faculdade teria se adiantado em negar que Decotelli fosse seu professor para que não fosse associada ao governo bolsonarista. Decotelli tem dito que a fundação "plantou fake news" para destruir sua carreira "por razões de perseguição política".


A FGV concedeu uma série de placas comemorativas a Decotelli, nas quais "parabeniza o professor Carlos Alberto Decotelli por sua atuação destacada como docente". Em 2012, por exemplo, ele foi parabenizado com um troféu da FGV Management "por ser o professor mais representativo da turma 02 do MBA em Gestão Financeira com ênfase em Mercado de Capitais".


A reportagem teve acesso a seis troféus concedidos pela FGV e ao calendário de docentes da instituição, que aponta centenas de aulas ministradas por Decotelli entre dezembro de 2001 e setembro de 2018, em cidades como Porto Alegre, Salvador, Rio de Janeiro, Vitória, Santos, Florianópolis, Uberlândia, Campinas e outras.






Após a contestação, a FGV mudou de tom e disse que "vem esclarecer, uma vez mais, que o professor Decotelli ministrava aulas em seus cursos de educação continuada, coordenados pelo Instituto de Desenvolvimento Educacional (IDE/FGV), que englobavam, além dele, outros quase 950 professores desde o início da pandemia em março do corrente ano, sendo 199 especialistas, 503 mestres e 247 doutores".


A entidade continua, em nota enviada ao jornal Folha de S. Paulo: "A afirmação de que não era professor das escolas FGV se trata de simples rigor técnico inerente às classificações terminológicas das Portarias da CAPES, uma vez que não lecionava em turmas de graduação e pós-graduação stricto sensu, o que não reduz, em absoluto, a importância de tais cursos de educação continuada".


Questionada, a FGV afirmou que "em seus 75 anos de existência sempre se portou de forma apartidária e (...) repudia, com veemência, as insinuações e inverdades que têm sido lançadas contra ela, notadamente essa fantasiosa - e inédita até aqui - alegação de motivação ideológica para suas declarações, que nada mais reportaram do que a verdade dos fatos, com todos os rigores técnicos. Em nenhum momento se negou que o Sr. Carlos Alberto Decotelli era professor, ao contrário, se esclareceu inclusive que, como tal, lecionava nos cursos de educação continuada. Qualquer outra forma de interpretação ou de ilação consiste em distorção indevida e maledicente".


Racismo


Decotelli também tem dito que seu caso ilustra o racismo à brasileira.


O professor tem inclusive ressaltado, sem citar nomes, que outras figuras da estrutura do governo "não foram atacadas tão covardemente" quanto ele por informações falsas no currículo.


Antes de ser ministra, Damares Alves, por exemplo, disse em diversas palestras em igrejas que era mestre em temas ligados a direito e educação. Após a posse, ela foi questionada sobre a ausência de um currículo Lattes - plataforma acadêmica mantida pelo CNPq (Conselo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).


Confrontada, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos acabou confirmando que não fez mestrados acadêmicos e alegou que "diferentemente do mestre secular, que precisa ir a uma universidade para fazer mestrado, nas igrejas cristãs é chamado mestre todo aquele que é dedicado ao ensino bíblico."


Já Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, também teve um mestrado na Universidade de Yale desmentido após escrutínio da imprensa. Após ser apresentado assim em uma série de artigos e programas de TV, Salles atribuiu o erro a sua assessoria de imprensa.


Abraham Weintraub, antecessor de Decotelli à frente da Educação, chegou a ser apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais como doutor - questionado, o presidente corrigiu a informação e disse que o apontado era mestre em administração e finanças.


Diferentemente de Decotelli, nenhum deles precisou se afastar ou foi demitido do cargo, que, na visão do agora ex-ministro, explicaria a associação ao racismo - todos os demais citados são brancos.

Fonte: BBC News

Navegue pela web
logo real certo.png
  • Facebook - círculo cinza
  • Twitter - círculo cinza
  • YouTube - círculo cinza
  • Grey Instagram Ícone