Depoimento: Trabalhei em boate destruída por causa de Raul Seixas


Raul Seixas faltou a show em 1985 e isso causou destruição de boate pelo público

Era o segundo semestre de 1985 e São Bernardo, no ABC, havia ganho uma das boates mais luxuosas já abertas no país, a Adrenalina. Aos 22 anos eu tentava ser músico profissional em várias bandas de cover (como tecladista), mas a necessidade de ganhar meu dinheiro ainda me obrigava a ter empregos formais.


Eu morava em São Caetano. Meses antes eu havia pedido demissão como caixa do extinto banco Nacional, e quando a Adrenalina abriu, eu me candidatei a uma vaga de caixa também. Como tinha experiência, fui contratado. O banco, aliás, ficava em frente à nova boate. A casa era enorme. Diz a lenda caberiam cerca de 8.000 pessoas (não acredito em tanto), e fora construída num enorme galpão de fábrica havia anos abandonado. A casa foi um sucesso imediato. Até então os jovens iam do ABC para São Paulo para se divertir. Pela primeira vez um movimento inverso acontecia. Multidões de São Paulo vinham nos finais de semana para São Bernardo.


A casa tinha o objetivo de só contratar a nata do rock brasileiro dos anos 80. Naquele lugar, como funcionário, lembro de ver dois shows antológicos —um, de Lobão; outro, de Lulu Santos.


Só que Adrenalina mal durou um mês. O que era para ser o seu grande momento se tornou quase uma tragédia com vítimas fatais. A boate anunciou um show de Raul Seixas, se não me engano marcado para um domingo. Nesta sexta (21) completam-se 31 anos da morte do cantor e compositor. Raul não fazia shows havia muito tempo, e o anúncio causou comoção. Todos os ingressos vendidos. Vieram caravanas até de outros Estados. Ônibus de excursão lotaram a avenida Caminho do Mar e imediações. No dia do show, porém, Raul Seixas não só não compareceu como algum empresário esperto —ou provavelmente desesperado— ainda tentou enviar um sósia em seu lugar.


Pior: o sósia era ridiculamente diferente de Raul. Não podia acabar bem. O histórico de Raul à época já era de faltar a seus shows mesmo. Era previsível. Depois de HORAS esperando o público finalmente entendeu que havia levado um cano. Como ocorre nesses casos não houve nenhuma racionalidade: uma multidão partiu para a vingança e a destruição. Foi simplesmente grotesco. As pessoas subiram no palco e começaram a atirar os equipamentos na plateia. Os vários bares e balcões da casa foram atacados; funcionários foram ameaçados. Só tive tempo de pegar a gaveta do meu caixa (com bastante dinheiro, aliás) e sair correndo para o escritório, onde outros funcionários já haviam se trancado.


Soquei a porta até abrirem, joguei a gaveta dentro da sala, tirei o "avental" (uniforme) da casa e saí correndo dali. Eu é que não ficaria ali trancado esperando os bárbaros arrombarem a porta e me matarem. Sem avental eu era só mais um espectador e agilmente consegui sair da casa para assistir a sua destruição completa. A polícia demorou muito para chegar. Depois vieram bombeiros, pois havia gente tentando incendiar o lugar. Não sei como pessoas não morreram naquela madrugada, na avenida Caminho do Mar.


Não sei como tive ainda o sangue frio de sair daquele inferno, mas parar na porta e ficar assistindo, impotente, à demolição de uma das mais belas casas que já pisei —e meu ganha-pão Não faço ideia de quanto foi investido naquele negócio, mas hoje eu calcularia que construir um espaço daquele deveria ser coisa de no mínimo uns R$ 10 milhões. Era muito luxo. Os equipamentos, o som e a iluminação eram importados e de primeira linha. Pois esse templo amanheceu como uma carcaça retorcida e fumegante. E eu estava desempregado novamente, apesar de ter vivenciado um dos momentos mais tristes da história da música (e do entretenimento).


Ricardo Feltrin - UOL

 
Navegue pela web
logo real certo.png
  • Facebook - círculo cinza
  • Twitter - círculo cinza
  • YouTube - círculo cinza
  • Grey Instagram Ícone