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Entrevista: Roberto Carlos | “Não sou a favor de manifesto, tem que resolver internamente”


Aos 48 anos, Roberto Carlos da Silva Rocha continua craque raiz. Não sobe no muro. Diz o que pensa. Sem filtro. Mesmo que a sinceridade desagrade A ou B em tempos de Brasil dividido. Na entrevista exclusiva a seguir ao blog, o lateral-esquerdo campeão da Copa 2002, bi da Copa América 1997 e 1999 e tri da Champions League pelo Real Madrid defende a realização do torneio continental no Brasil em meio à pandemia, critica o “Manifesto de Assunção” da Seleção, posiciona-se contra eventuais protestos no país durante o evento, defende que jogadores assumam a CBF, mas também mostra ternura. Embaixador do Real Madrid e do Football For Friendship — o Futebol Pela Amizade — evento global realizado anualmente pela Gazprom, patrocinadora da Uefa, com crianças e adolescentes do mundo inteiro, ele conta como compartilha valores e os atalhos para o sucesso na vida e no futebol.

Qual é a sua opinião sobre a Copa América no Brasil na pandemia?

Se fizerem como aqui na Europa, só entrar no estádio quem estiver vacinado e faz o PCR, eu não sou contra. O importante é que os jogadores se cuidem. Eles são obrigados a fazer o PCR. Se tiver um protocolo decente, que não coloque em risco profissionais no estádio ou no hotel, é como se fosse uma bolha. Na Europa, só viaja quem tem o PCR negativo. Se a Conmebol fizer o mesmo, eu não sou contra a Copa América.


O que achou no Manifesto dos jogadores da Seleção Brasileira?

Não sou muito a favor de manifesto, não, sabia? Joguei 17 anos na Seleção. Essas coisas têm que ser resolvidas internamente. Tá na Seleção tem que jogar. Eu sei que a temporada está sendo muito difícil e apertada, mas 30 dias só, acaba e tudo volta à normalidade. Seleção tem que jogar sempre. Somos a referência. A Copa América veio para mostrar que o vírus não pode nos vencer, não podemos nos entregar ao vírus. Entendo os jogadores, dá medo, mas se todo mundo se cuidar não teremos problema.

Você foi contra manifestações na Copa de 2014. Acha que teremos novamente na Copa América?

Estamos em um mundo aberto. Todo mundo é livre. Se quiserem manifestação, ok, se não quiserem, sente-se na frente da televisão e veja grandes jogos. Prefiro a segunda opção: ficar na frente da televisão, na minha casa, vendo grandes jogadores, ainda mais do meu país. O Brasil é maravilhoso e quanto antes acabar com essa polêmica, melhor.

Você foi jogador do Tite no Corinthians. É possível comparar o trabalho no clube e na Seleção?

Comigo ele se comportou super bem, como se me conhecesse há muito tempo. Um cara respeitoso, maravilhoso. Ele é muito tranquilo no trabalho dele. Merece um título mais alto. Claro que ter a Copa América (2019) é bom, mas para o que o Tite precisa, mesmo, é colocar essa Seleção campeã do mundo para ele próprio ser conhecido não somente como estrategista, mas um grande treinador e excelente pessoa.



O Brasil chegará à Copa-2022 com 20 anos de jejum. Será hexa?

Aquela Seleção (de 2002) deixou o nível muito alto. É difícil montar uma Seleção com a mesma qualidade, mas quanto antes o Brasil ganhar uma Copa seria perfeito. Enquanto não ganha, a última foto estampada é a nossa.

O que falta para o hexa? O Brasil paga pelo desperdício de 2006?

Não é que estava fácil, era possível ter ganhado em 2006. A Seleção Brasileira, do jeito que está jogando, melhorando jogo a jogo, pode voltar a vencer.

A lateral-esquerda teve Branco, Leonardo, Roberto Carlos e Marcelo. A renovação está difícil?

Alex Sandro é titular na Juventus, mas o Renan Lodi não tem atuado muito aqui no Atlético de Madrid. Caso a Seleção necessite tem o Filipe Luís. Ele está jogando uma bola muito redonda, como sempre fez. Ele e o Marcelo aguentam mais uma Copa. Essas convocações são boas para que o Lodi sinta o que é a Seleção.

As últimas grandes exibições da Seleção, para mim, foram contra o Chile, aqui em Brasília, e na final da Copa das Confederações contra a Argentina, ambas em 2005. Qual era o segredo daquele time?

Era uma Seleção que se divertia jogando e dava alegria. É a nossa obrigação. Divirtam-se no campo e saibam que por trás há 212 milhões de pessoas que, pela situação do mundo, necessitam da alegria de ver a Seleção jogar bem, ganhar, deixá-los contentes.

Em 10 anos, a CBF teve seis presidentes, quatro técnicos, dois títulos e escândalos. O que fazer?

Temos que pensar em ex-jogadores para ser presidente e diretor esportivo. Fácil. Temos Ricardo Rocha, Cafu, Ricardo Gomes e tantos outros que sabem lidar com isso para que o futebol brasileiro extracampo seja melhor e limpemos essa imagem ruim.

Favoritos à Euro e Copa América?

França, Itália e Espanha são as favoritas por aqui. A França está jogando um futebol maravilhoso, impressionante. Jogam juntos há muito tempo. Espanha mudou um pouco. O Luis Enrique renovou a seleção. O Roberto Mancini mudou algumas peças na Itália, mas a ideia continua. Acho que a França tem uma ligeira vantagem sobre os outros. Na Copa América você já sabe a minha resposta.

O Real Madrid trocou o Zidane pelo Ancelotti. O que achou?

Ele já conhece aqui. Foi campeão no Real Madrid, conhece muito bem os jogadores, o que representa ser treinador do Real. É só ele repetir os anos em que esteve aqui. Ele conhece a maioria dos jogadores, o sistema de jogo, é um treinador de alto nível.

O Real pode ter até seis brasileiros na próxima temporada. É a nova versão do Real Brasil?

Significa que o futebol brasileiro está em alta. O Vinicius está jogando como titular. O Rodrygo é um jogador sensacional. O Casemiro nem se fala. O Militão é um fenômeno. É um nível de futebol muito alto. O Brasil é a cara, a imagem do Real Madrid.

A lateral-esquerda do Real passou de você para o Marcelo. Quem será o próximo sucessor?

A maioria dos laterais brasileiros está começando. O Real tem o Marcelo, Miguel Gutierrez e o Mendy. Alaba é mais zagueiro. O Real Madrid contrata grandes zagueiros, mas, quem sabe, daqui a pouco, a gente não contrata um atacante para ajudar o Vinicius, o Hazard e o Benzema a meter gol.

Continuará a carreira de técnico?

Estou terminando o curso de Licença A e Pró. Foi uma experiência enorme. Sempre é difícil um vestiário com 25 cabeças que pensam diferente. Fui eleito o melhor treinador da temporada na Turquia, coloquei o Anzhi da Rússia na Europa League. Estou muito bem aqui como embaixador do Real, estou mais tranquilo.



Toparia ser treinador no Brasil?

Ainda não. Deixa eu aprender aqui (na Europa) primeiro, conhecer mais dos clubes da Espanha, e retornarei ao Brasil para um clube ou até para pensar em Seleção. Mais para a frente, deixa o Tite no momento (risos).

Você tem 11 filhos e adotou mais 600 como embaixador do Football for Friendship (F4F), Futebol pela Amizade. Como foi a interação?

É divertido quando você vê um monte de crianças perguntando da sua carreira, da sua vida. A experiência de ser pai deixa mais fácil de responder. São perguntas interessantes como o gol contra a França (de falta, em 1997), como era conviver com os galáticos (no Real Madrid). Conto essas histórias em 40 minutos divertidos.

O F4F trabalha nove valores com as crianças: amizade, igualdade, justiça, saúde, paz, dedicação, vitória, respeito às tradições e honra. Em qual você focou mais?

Amizade, respeito, igualdade. Vontade de vencer sempre. Há tanto racismo, brigas no campo, e eu tento passar que era um jogador respeitado, querido por todas as torcidas. Lealdade dentro do campo, igualdade no vestiário e ser companheiro.

Qual foi a pergunta mais interessante que ouviu das crianças?

Como eu fiz aquele gol contra a França (vídeo abaixo). Até hoje eu não sei. Explico que o vento ajudou, a bola pesava pouco, que o meu pé de apoio estava perto da bola. As crianças acompanham muito a minha vida por redes sociais para que eles entendam como pode ser a vida deles.




Marcos Paulo Lima

Formado na Universidade Católica de Brasília, é subeditor de Esportes. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e de 2018, a Copa América 2011, a Copa das Confederações 2013, a final da Champions League 2015, a Eurocopa 2016 e os Jogos Olímpicos do Rio-2016 pelo Correio Braziliense


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