Galo lança a revolução dos entregadores de aplicativo.

Atualizado: Ago 3

Essenciais na pandemia, invisíveis na vida real.

Criador do Movimento dos Entregadores Antifascistas, paulistano de 31 anos vai às ruas para defender a democracia e cobrar dignidade aos trabalhadores informais

O paulistano Paulo Lima sempre sonhou em ser rapper. Compondo e cantando desde os 12 anos, era através das rimas e da música que ele pensava ajudar sua comunidade no Jardim Guarau, periferia da zona oeste de São Paulo, mas a vida tomou outros rumos. Hoje faz parte de um contingente de quase 4 milhões de jovens que se equilibram numa moto ou numa bicicleta para fazer entregas, na roda da economia informal do Brasil. Muitos trabalham via aplicativos como Rappi ou iFood, sem nenhum benefício. Cruzam a cidade para entregar comida às famílias de classe média de estômago vazio.

A gota d'água para Galo foi o dia 21 de março, seu aniversário, quando o pneu da moto furou, e ele não pôde concluir uma entrega. Foi bloqueado pelo aplicativo para o qual prestava serviço. “Foi quando pensei ‘chega, mano, vou denunciar esses caras aí’. Eles não explicam por que te bloqueiam, te mandam ler o contrato e dizem que não têm que explicar nada, não”, conta ele. Passou a fazer entregas por conta própria para clientes que têm seu celular, até porque a maioria dos aplicativos o bloqueou.


Diz que não teme pegar a covid-19, mas sim levá-la para casa, onde vive com os pais, a filha de três anos, a esposa, a sogra e um cunhado de oito anos. Em março, Galo criou um abaixo-assinado —que já tem mais de 550.000 assinaturas— para fazer com que os aplicativos disponibilizem café da manhã, almoço e jantar, além de um kit higiene para os entregadores. Foi a semente do Movimento de Entregadores Antifascistas. “Quando fui falar com os colegas, alguns me mandaram ir para Cuba, disseram que não eram mortos de fome, que o que queriam era ganhar melhor para comprar sua própria comida”, lembra. Aos poucos ganhou apoio e fortaleceu seu movimento que já levantou, por exemplo, a média de ganho dessa atividade de risco: 963 reais por mês por 12 horas de trabalho diárias .


Já foi até sondado para lançar-se como pré-candidato a vereador de São Paulo, mas recusou o convite. “Quero continuar até o fim da minha vida como um político de rua, um político que articula os trabalhadores na rua, e me unir com os políticos institucionais e sindicais que tenham o sentimento de empoderar o trabalhador”.

Ele considera essa atuação na base importante por ser algo “que ninguém quer fazer por muito tempo” e que muitos usam de ponte para conseguir mais influência e dinheiro na política institucional. “Mas a política de rua é importante, mano. Um político de rua pode mudar muito mais que um político de caneta, até porque é o punho cerrado que diz o que a caneta tem que escrever. Cerrar o punho na rua é a política mais importante do mundo”, afirma.

Galo conversou com Luciano Huck, famoso apresentador de TV que se perfila como candidato à presidência nas eleições de 2022 e um fervoroso advogado do empreendedorismo. “Acho zoado esse discurso dos não-políticos, os empreendedores, na política. Deixei claro isso para ele. Para mim, os ricos do país sabotaram a política para se vender como solução do futuro. Se você é um não-político, o que você quer na política?”, questiona o entregador que, diferente da imensa maioria dos brasileiros, não quer ser rico. Sonha com uma casa confortável, um jardim bonito com um pé de manga, onde possa ver sua filha correr. A música também é seu refúgio. Compõe e canta até hoje. “O amor da minha vida é o rap”, afirma.

Fonte: El País

 
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