Jardim de chuva une o útil ao agradável em Copacabana

Atualizado: Ago 3

Alagamentos, barulho e desarmonia não fazem mais parte do cotidiano de moradores da Rua Almirante Gonçalves, em Copacabana na Zona Sul do Rio. Uma parceria entre o poder público e os cidadãos resolveu a questão que tanto irritava e causou discórdia entre vizinhos da pracinha da rua sem saída. Acabar com a praça e abrir a rua à passagem de veículos, o que parecia antipático para alguns, foi aprovado por todos no final. Um lindo e útil jardim de chuva foi criado no local, um projeto piloto que rendeu sustentabilidade e satisfação e deve ser padronizado e replicado. Sustentabilidade é um dos assuntos principais do Rio Capital Mundial da Arquitetura. A via residencial e comercial do Posto 6, que liga as avenidas Atlântica (litorânea) e Nossa Senhora de Copacabana (eixo comercial), foi fechada aos veículos pelo Projeto Rio Cidade Copacabana, em 1997, tornando-se uma pequena praça. Valorizada naquela década, era tormento ultimamente para alguns moradores, que pediam a reabertura à passagem de veículos, pois a praça estava sendo ocupada por usuários de drogas, carros estacionados, alagava quando chovia muito e não comportava a entrada de ambulâncias, carros de polícia, bombeiros e caminhões de lixo. Fora o barulho intenso das aglomerações e a grande quantidade de furtos e assaltos na área, que eram constantes queixas. O pedido de reabertura da via foi negado diversas vezes por técnicos, que avaliavam os impactos do ponto de vista urbanístico. Mas, diante da insistência e abaixo-assinados à Superintendência da Zona Sul e a duras penas a permissão foi concedida e um conflito instalado. Alguns comerciantes estavam revoltados com a abertura. O ponto de conciliação partiu da experiência de mais de 25 anos da Coordenadoria de Projetos da Coordenadoria Geral de Planejamento Urbano da Secretaria Municipal de Urbanismo, acompanhando os avanços para construção de cidades mais humanas e resilientes.


Nada mirabolante. Apenas foram levados em consideração princípios básicos de mobilidade, mantendo o pedestre como prioridade, propiciando a fluidez do acesso aos serviços e de infraestrutura verde, com a intensificação e cuidados com a arborização e com os canteiros, trabalho com pisos drenantes e com biovaletas para captação de água de chuva. Somadas a outras importantes iniciativas, ajudam a rede pluvial a absorver mais lentamente o volume de água na hora da chuva forte, como uma esponja que retém e limpa a água antes de devolver ao sistema pluvial. O canteiro drenante, como também é chamado o jardim de chuva, da Rua Almirante Gonçalves tem 6 m de comprimento por 3 m de largura, com 1 m de profundidade, ficando as plantas no nível da rua. Foram colocadas três camadas filtrantes de terra, brita e pedras de mão, entremeadas de filtro de sombrite 50%. Há entradas de água laterais para captar a água que escorre na rua. Testado e aprovado, o projeto é uma forma de aumentar a qualidade dos espaços urbanos e de mitigar os efeitos das chuvas torrenciais, retardando parte do envio de águas para o sistema pluvial.


– Surgiu uma oportunidade naquela rua, de experimentar a construção de um jardim de chuva. O canteiro é conectado à via, por canaletas extravasadoras que servem para absorver água empoçada pela chuva na rua ou como ladrão, caso o jardim exceda a sua capacidade de acumular água na hora da tempestade. O conceito é um dos recursos para mitigar os efeitos das enchentes usando soluções baseadas na natureza, para captar filtrar e devolver mais lentamente ao solo ou à rede pluvial, dependendo do subsolo encontrado -, lembra a arquiteta responsável, Claudia Grangeiro da Silva Castro, assessora de projetos da SMU/Coordenadoria de Projetos.


Moradores de um prédio em frente à praça gostaram da ideia de construir o canteiro drenante, com espécies nativas que eles pudessem acompanhar e adotar. Conscientes de que teriam que investir em parte dos custos da obra e assumir a manutenção, um condomínio arcou com o encargo e foi parceiro em todas as etapas da construção.



Moradores ajudaram no plantio e adotaram o jardim de chuva, também chamado de canteiro drenante. Agora vão contratar jardineiro



Com o jardim pronto e as espécies plantadas, a fase seguinte foi a adoção oficial do jardim pelos moradores. Assim, eles investem em manutenção. A meta é reforçar o paisagismo com mais plantas nativas que tenham flores como as pitangueiras e a eugenia copacabananensis, típicas desta praia, aumentar o volume plantado. Instalar uma placa com as informações básicas quanto a função e o funcionamento do jardim filtrante, informando também quais as espécies nativas ali plantadas.


– A ideia trazida pela Claudia tornou a rua mais bonita, acabou com as enchentes que atingiam as garagens dos prédios. Agora queremos contratar um jardineiro para harmonizar e florir mais a via. Até os comerciantes que eram contra estão adorando o resultado -, resume a Flávia Homsy, moradora do condomínio Muiracoatiara, que adotou o canteiro.


Além do jardim, foi feita a ampliação da gola de uma árvore para evitar que continuasse quebrando a calçada, e uma estação de aluguel de bicicletas, Bike Rio, foi instalada em outro trecho, sem comprometer a circulação de pedestres. Isso aumentou o fluxo de pessoas que passam pelo local, favorecendo o comércio, sem prejudicar a qualidade de vida de moradores.

– A importância de compartilhar experiências de micro intervenção na cidade está em incentivar a reflexão e gerar insumos para serem replicadas em outras situações. No momento atual, em que o poder público não tem recursos para executar grandes obras e a saúde está na ordem do dia, impondo restrições, precisamos criar soluções acessíveis e autossustentáveis. Iniciativas que partem da população, devem ser ouvidas e consideradas, porque promovem responsabilidade, sensação de pertencimento e o cuidado na construção e na manutenção do lugar, reativando espaços públicos -, explica Claudia.


Após a experiência, Flávia Homsy concorda: – Foi muito boa a parceria com o poder público. Também é nosso dever observar o que é melhor para o lugar e ajudar na realização e manutenção de melhorias. Atualmente, até o porteiro tem um sentimento de pertencimento, varre áreas e rega as plantas, como se o jardim fizesse parte da nossa casa. Moradora do mesmo prédio, Sandra Curty Faria enfrentou muitos problemas antes da mudança urbanística na via. – Sofremos porque meu marido ficou doente e a ambulância não chegava até nós para pegá-lo. Quando chovia muito, entrava água na garagem e tínhamos que retirar os carros -, comenta, agora, satisfeita. Sandra ressalta que o novo visual da rua incentivou a comerciantes e outros moradores a fazerem melhorias em suas calçadas. Cafeteria, salão de cabeleireiro e outros prédios colocaram vasos nas calçadas, tornando a rua mais bonita. Viabilização após oficina

A mentora do projeto, Claudia Grangeiro, havia participado de um módulo da oficina promovida na Fundição Progresso para concepção e desenvolvimento do primeiro jardim de chuva do Rio. Segundo ela, foi um processo empolgante com a participação de uma grande equipe de profissionais e estudantes. O resultado é um jardim pungente no

meio da Lapa. Veja na reportagem https://capitalmundialdaarquitetura.rio/rio-capital-mundial-da-arquitetura/organicidade-o-poder-de-transformar-terrenos-baldios-em-hortas-urbanas/. – A nossa iniciativa seria mais arriscada visto que trabalhar com espaço público envolve ainda mais variantes incertas, como o vandalismo, os animais, a população de rua etc. Mas foi um processo muito interessante, com a colaboração de técnicos envolvidos na construção do jardim de chuva da Fundição Progresso, como a arquiteta Fabiana Carvalho e a arquiteta recém-formada no curso de ecologia urbana da PUC, Hanna Casarin. O engenheiro florestal, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Celso Júnior, apoiou e fez a proposta do paisagismo. Otto Ruback, arquiteto ambientalista e especialista em drenagem urbana, avaliou o local e propôs solução para, caso houvesse um excedente de água não absorvida pelo solo, que fosse direcionada à rede pluvial -, conta Claudia. Os engenheiros da Subsecretaria de Conservação da SMIHC, responsáveis pela obra de reabertura da via, fizeram a escavação, recolheram o material e ainda se encarregaram por alguns dos acabamentos importantes do piso. Como arquiteta responsável, Claudia coordenou as etapas do projeto e os contatos com moradores e com todos os envolvidos nas discussões das soluções. O resultado da drenagem tem que ser acompanhado e avaliado sempre. De acordo com a especialista, em Copacabana o solo encontrado era arenoso, o que facilita a drenagem rápida, absorvida diretamente. Em outras áreas da cidade, deverá ser verificada a qualidade do solo através de uma sondagem inicial, para encontrar a solução mais adequada. – As moradoras engajadas em manter o espaço adequado providenciaram mais iluminação e mais áreas de canteiros sob a marquise do prédio para aumentar a cobertura verde. O uso da estação Bike Rio é intenso mesmo durante a noite, o que traz vida a este ponto. A gola de árvore que estava quebrada e apertada foi ampliada tornando-a mais um canteiro ajardinado, liberando as raízes com mais espaço -, mostra os resultados Claudia Grangeiro. Ela acrescenta ainda que, atualmente, alguns dos mais diversos e antagônicos moradores e comerciantes parecem ter ficado satisfeitos com os resultados. Com a pandemia as aglomerações se tornaram um risco. A fluidez da mobilidade, a pé, de bicicleta ou de um veículo de serviço, convive  com um espaço mais verde. Urbanizar e qualificar a intervenção mantendo a prioridade do pedestre e trazendo vitalidade foi o objetivo ao propor a instalação dos novos elementos urbanos nas áreas remanescentes. Fabiana Ferreira de Carvalho, arquiteta e urbanista que trabalha com projetos voltados para sustentabilidade, acompanhou o processo e acrescenta que o jardim de chuva funciona como um vaso de plantas, com as camadas divididas em três terços da profundidade, aumentando o espaço de ar entre os componentes.


– Neste caso, o jardim de chuva foi feito na lateral voltada para os Arcos da Lapa, uma área de baixa (abaixo do nível da rua). A rua de cima formava uma ladeira, a água escorria para lá e acumulava, impedindo eventos. É encantador. O problema foi resolvido com o sistema de biorretenção. E o custo é baixo, inferior aos prejuízos causados por enchentes -, diz Fabiana.


Calçadas Cariocas A Prefeitura do Rio de Janeiro disponibilizou o estudo de um grupo técnico multidisciplinar, com procedimentos para intervenção e ordenação dos espaços públicos, com o objetivo de melhorar a acessibilidade e o conforto de pedestres, moradores e visitantes da cidade.

Medidas das faixas das calçadas, modelos de rampas e faixas para travessia de pedestres, implantação do mobiliário urbano e arborização, entre outros elementos, estão na publicação que também informa quais são as leis pertinentes aos temas, disponível para consultas online no site da SMU ‘Caderno Calçadas Cariocas’. Veja:


http://www.rio.rj.gov.br/web/smu/exibeconteudo?id=9599571 O estudo foi revisto e ampliado em maio de 2019, com os conceitos, normas e parâmetros definidos atualizados. Está disponível também em forma de ‘Livreto Calçadas Cariocas’ atualizado constantemente, asíntese ilustrada dos parâmetros, contém ainda alguns links pertinentes. Pode ser impresso em PDF formato A5, disponível também no site da SMU. Acesse aqui:.


http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/9599540/4272308/LIVRETO_A5.pdf Veja o projeto piloto do jardim chuva: http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/10004661/4289112/JardimChuva.ruaAlmteGoncalves.pdf

 
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