Macron, o 'demônio de Paris': por que há tanta revolta contra presidente francês no mundo islâmico

Atualizado: Nov 6

"Não vamos desistir de nossos cartuns", disse o presidente francês, Emanuel Macron, durante uma homenagem a Samuel Paty, o professor francês que foi decapitado por mostrar desenhos do profeta Maomé em um debate sobre liberdade de expressão na sala de aula.


E agora, imagens do presidente francês estão sendo queimada em protestos furiosos em todo o mundo islâmico, onde foi retratado como um "demônio" e acusado de adorar a Satanás.


Com o aumento das tensões, as autoridades francesas pediram a seus cidadãos em vários países islâmicos que tomem cuidado e permaneçam vigilantes.


E o prefeito de Nice, Christian Erosi, pareceu sugerir uma ligação entre esse cenário de descontentamento e o assassinato de duas pessoas na catedral da cidade francesa na quinta-feira (29/10).


"Confirmo que tudo sugere um ataque terrorista dentro da Basílica de Nossa Senhora de Nice", escreveu Erosi no Twitter logo após o incidente.


"13 dias depois de #SamuelPaty, nosso país não pode mais se contentar com as leis de paz para acabar com o islamo-fascismo", acrescentou o prefeito.



O assassinato de Paty ocorreu duas semanas depois que o presidente francês descreveu o Islã como uma religião "em crise" e anunciou novas medidas na França para lidar com o que chamou de "separatismo islâmico".


E então, em uma cerimônia em homenagem ao professor decapitado, Macron elogiou Paty e prometeu "continuar essa luta pela liberdade, essa luta pela defesa da República da qual ele se tornou o rosto".


As representações do profeta Maomé são consideradas tabu no Islã e são ofensivas para muitos muçulmanos.

Mas o secularismo do Estado é fundamental para a identidade nacional da França.


E, de acordo com o Estado francês, restringir a liberdade de expressão para proteger os sentimentos de uma comunidade em particular prejudica a unidade.


A defesa dos cartuns de Maomé feita por Macron foi o estopim, nesta semana, da nova onda de protestos no mundo islâmico, onde houve apelos de boicote a produtos e empresas franceses — uma convocação reforçada pelo presidente da Turquia, Recep Taryipp Erdogan.


Em um discurso transmitido pela televisão no fim de outubro, Erdogan disse que os muçulmanos estão agora "sujeitos a uma campanha de linchamento semelhante àquela contra os judeus na Europa antes da Segunda Guerra Mundial".

"Os líderes europeus deveriam dizer ao presidente francês para interromper sua campanha de ódio", acrescentou.



Até agora, porém, as principais capitais europeias têm apoiado Macron e sua defesa dos valores seculares franceses, incluindo a liberdade de expressão.


E, fiel ao seu estilo particular, o semanário satírico Charlie Hebdo juntou-se à campanha publicando em sua capa na quarta-feira (28/10) uma nova caricatura, o que certamente irá levar ainda mais tensão para as relações com a Turquia de Erdogan.


A imagem mostra o presidente turco de cueca e levantando a saia de uma mulher coberta com um véu islâmico carregando uma bandeja de bebidas, enquanto diz "Ai, o profeta!".


"Erdogan, no privado, é muito divertido", lê-se na capa da publicação, que foi vítima de um atentado sangrento em 2015 após ter publicado várias charges do profeta Maomé, as mesmas que Paty mostrou em aula.


O assessor de imprensa chefe de Erdogan, Fahrettin Altun, criticou imediatamente a publicação da caricatura.

"Condenamos este esforço repugnante desta publicação de espalhar seu racismo e ódio cultural", escreveu no Twitter.

Mas o principal alvo das críticas dos islâmicos turcos continua sendo o presidente da França, com o jornal turco Yeni Akit alertando que "Macron, o insolente, joga com fogo".


Em todo o mundo islâmico


A raiva contra o presidente francês e o país, porém, não se concentra apenas na Turquia.

No Irã, o semanário ultraconservador Vatan Emrooz publicou seu próprio desenho do presidente francês, nesta semana, com o título "O demônio de Paris".

E em Bangladesh cerca de 40 mil pessoas foram às ruas para pedir um boicote aos produtos franceses.

"Macron é um dos poucos líderes que adoram Satanás", disse aos manifestantes Ataur Rahman, um dos líderes do Islami Andolan, o partido islâmico que convocou a marcha.



"A França é inimiga dos muçulmanos. Aqueles que os representam também são nossos inimigos", disse outro líder do grupo, Nesar Uddin.


No Paquistão, o primeiro-ministro, Imran Khan, também acusou o presidente francês de "atacar o Islã".

Já o líder checheno Ramzan Kadyrov acusou Macron de provocar muçulmanos, dizendo que o presidente francês estava "começando a parecer um terrorista".


A Arábia Saudita, por sua vez, emitiu uma declaração oficial condenando as charges do profeta Maomé, mas não mencionou explicitamente a França.


Produtos franceses foram recolhidos em algumas lojas em Kuwait, Jordânia e Catar.

Também houve protestos em vários outros países, incluindo Iraque, Líbia e Síria.


'Distorcido'


A França, por sua vez, criticou o apelo ao boicote aos produtos franceses, afirmando que "distorce as posições defendidas pela França a favor da liberdade de consciência, liberdade de expressão, liberdade de religião e rejeição de qualquer apelo ao ódio" .


De acordo com o Ministério das Relações Exteriores da França, os comentários de Macron sobre o Islã também foram distorcidos "para fins políticos".


Em uma mensagem postada no Twitter na segunda-feira (26/10), Macron disse que a França "nunca cederá", embora também tenha dito que respeita "todas as diferenças em um espírito de paz".


"Não aceitamos discurso de ódio e defendemos um debate razoável. Estaremos sempre do lado da dignidade humana e dos valores universais", escreveu ele.

A França tem a maior população muçulmana da Europa Ocidental e alguns acusam as autoridades de usar o secularismo contra eles.


No momento, Macron conta com o apoio dos principais países europeus.


A Alemanha falou de "solidariedade" com Macron após os comentários de Erdogan, e o porta-voz do governo, Steffen Seibert, chamou os comentários do presidente turco de "difamatórios" e "completamente inaceitáveis".


O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, disse que a Holanda "apoia fortemente a França e os valores coletivos da União Europeia", enquanto o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, também expressou "total solidariedade" com Macron.

 
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