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O mito de prosperidade do aposentado alemão esbarra na pobreza

Perda de poder aquisitivo se acentua entre os idosos, filão explorado pela extrema direita, e um número crescente deles precisa trabalhar. Em janeiro, Governo estreia renda básica para público


Fila num banco de alimentos na cidade alemã de Schweinfurt, em novembro deste ano

Uma fila de pessoas, convenientemente distanciadas por seus carrinhos da compra, se forma numa gélida manhã de inverno em frente a uma igreja na periferia de Berlim, a capital alemã. Faltam duas horas para que ela abra, mas ninguém ali quer perder sua vez no refeitório social, de onde sairão com uma sacola cheia de alimentos. São casais jovens, mas também aposentados, que precisam complementar a pensão em um país onde os idosos empobreceram nos últimos 15 anos a um ritmo mais acelerado que o restante da sociedade. Lá dentro há comida de sobra para todos, mas a fila já deu meia volta no edifício.


“Há muitos aposentados e famílias com muitos filhos. Também tem gente que conhecemos da paróquia que não vem porque tem vergonha, mas sabemos que sua pensão é muito baixa”, conta Christine Hoppmann, que comanda a operação da igreja protestante Paul-Gerhardt, em Spandau ―uma iniciativa que se repete em vários outros bairros de Berlim. Os voluntários recolhem os excedentes dados nos supermercados e com eles preparam sacolas ―a covid-19 obriga a empacotar tudo― para 400 pessoas por dia. Os usuários geralmente vivem dos serviços sociais, o chamado Hartz IV. “Aqui ninguém morre de fome, a ideia é que com os alimentos [que apanham aqui] consigam economizar para poderem se permitir algo mais, para saírem para tomar um café ou ir ao cinema.”


Fora, na rua, em um dos primeiros lugares da fila, espera uma mulher de 83 anos, apoiada em um andador com carrinho incorporado. Conta que veio pegar comida para uma sobrinha. Trabalhou como faxineira no Senado de Berlim e ganha 720 euros (pouco menos de 4.600 reais) de pensão, mais um complemento. “As mulheres da minha geração fomos as que reconstruímos o país em um momento histórico, quando a economia era frágil”, diz esta mulher que prefere não dar seu nome. Junto a ela está sua filha, de 59 anos, que se declara incapaz de achar trabalho em tempos de coronavírus. Não se importam muito com a espera e encaram a situação com resignação e bom humor: “Vamos ver o que vem na sacola. Isto é como um Kinderovo, cada semana uma surpresa”.


Lá dentro, uma voluntária em cadeira de rodas organiza os pacotes-surpresa e reflete sobre o destino deste bairro onde vive desde a década de 1980. “Tenho a impressão de que nos últimos anos a situação piorou.” As cifras confirmam. A Tafel Deutschland, organização que reúne mais de 940 bancos de alimentos do país, afirma que a tendência é clara: “A proporção de idosos entre nossos usuários não para de crescer. Essa cifra quase duplicou desde 2007”, afirma a entidade. Um quarto dos usuários destas ajudas supera a idade de aposentadoria. Apenas entre 2018 e 2019, a cifra de beneficiários idosos cresceu 20%.


A população maior de 65 anos em risco de pobreza passou de 4,7% em 2005 para 15,7% nos últimos 15 anos, o que soma quase 2,7 milhões de pessoas, segundo o órgão oficial de estatísticas da Alemanha. “A geração de mais de 65 anos na Alemanha enfrenta um crescente risco de pobreza”, afirma. Considera-se que o indivíduo recaiu nesse risco quando sua renda é 60% inferior à média da população. Em 2019, isso significava 1.074 euros mensais (6.856 reais, pelo câmbio atual). A convergência do risco de pobreza entre a população normal e os idosos sugere que são estes últimos os que menos se beneficiaram de uma década de crescimento econômico quase ininterrupto no país.




Johannes Geyer, pesquisador do Instituto Alemão de Estudos Econômicos (DIW, na sigla em alemão), põe este crescimento em perspectiva. “Nos últimos 10 anos vimos um forte crescimento da pobreza dos idosos, mas é preciso levar em conta que se partia de um nível muito baixo em comparação com a população jovem. Agora se igualou”, explica o economista. O aumento da pobreza reflete em parte os cálculos por trás da reforma previdenciária, mas também está relacionado com o crescimento do desemprego até 2005. Muitos aposentados que estiveram desempregados em algum momento daqueles anos agora veem essa interrupção refletida no cálculo das suas pensões. Além disso, segundo Geyer, pesa o aumento de empregos mal remunerados desde o final da década de 1990, que também termina repercutindo na pensão.

“Os idosos são o grupo em que a pobreza cresce mais rápido na Alemanha”, concorda Christoph Butterwegge, cientista político especializado em políticas sociais da Universidade de Colônia. A culpa disso, na opinião desse especialista, é das reformas do sistema de desemprego e de ajudas lançadas pelo chanceler socialdemocrata Gerhard Schröder no começo deste século, a chamada Agenda 2010. “Aumentou a subcontratação e a precariedade, e isso significa que no final as pessoas têm pensões mais baixas”, afirma Butterwegge.

São os perdedores de um mercado de trabalho que, até a irrupção do coronavírus, não parava de registrar mínimos históricos de desemprego, num país onde a demografia prenuncia um agravamento da situação. O progressivo envelhecimento da população alemã indica um aumento da pobreza entre os idosos nos próximos anos. Os idosos representam 21,5% da população da Alemanha (83,1 milhões no total), acima da média da UE (20,3%).


Trabalhadores idosos


O agravamento da pobreza dos idosos se sobrepõe ao fenômeno dos trabalhadores dessa faixa etária. É fácil vê-los repondo os produtos nos supermercados, distribuindo jornais de madrugada ou mesmo recolhendo garrafas para reciclar, em troca de alguns cêntimos cada uma. É o caso de Karl-Heinrich Fromm, que às 5h, quando ainda é de noite, começa a entregar jornais com um carrinho nos escritórios de Berlim. Tem 68 anos, uma tala no pulso e artrose nos joelhos. Esse ex-marceneiro diz que precisa complementar a aposentadoria e por isso distribui jornais por 400 euros ao mês (cerca de 2.560 reais). Sua aposentadoria é de 930 euros e diz ter sorte de morar de aluguel numa moradia social em um Plattenbau, os edifícios pré-fabricados típicos da Alemanha Oriental. Mesmo assim, não pode se permitir grandes nem pequenos luxos. “Faz anos que não saio de férias; não posso me permitir a isso.” Viajou ao exterior pela última vez em 1990. Fromm, com o cabelo cortado tipo escovinha, conta que muitos de seus amigos e conhecidos idosos também trabalham.


Karl-Heinrich Fromm, repartidor de periódicos, de 68 años, en Berlín.

As cifras do órgão alemão de estatística indicam que a proporção de idosos que trabalham mais do que duplicou nos últimos 10 anos ―de 8% das pessoas entre 65 e 69 anos, em 2009, para 18% no ano passado. Ao todo, 1,1 milhão de cidadãos maiores de 65 anos continuam como assalariados, segundo a agência de emprego do país. “Isto é novidade e se trata de um grupo de pessoas muito heterogêneo. Há autônomos que simplesmente preferem continuar trabalhando e têm boa saúde, mas há também um novo tipo de aposentado que utiliza os minijobs [com os quais tiram até 450 euros por mês] para conseguir um dinheiro extra sem que isso afete a pensão”, diz Geyer.

A partir de 1º de janeiro, entra em vigor na Alemanha o subsídio mínimo para aposentados com pensões baixas. É uma espécie de renda básica aprovada neste ano pela grande coalizão de Governo (a CDU de Angela Merkel e os sociais-democratas), e se calcula que quase 1,3 milhão de pessoas se beneficiarão dela ―a maior parte mulheres, porque se aplica também a quem tiver mantido filhos ou dependentes sob seus cuidados. “Os feitos vitais merecem reconhecimento”, afirma o Governo na apresentação do benefício. O ressentimento com a falta de reconhecimento a certos aposentados na Alemanha é um filão da qual o partido ultradireitista AfD já demonstrou que aspira a capitalizar, ao centrar seu último congresso extraordinário no tema das pensões.

 
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