Os julgamentos das praças virtuais

''Será que estamos tão no fundo do poço?


Será que o erro judiciário, mesmo no nascedouro, não incomoda mais a ninguém?

Meus caros, antes de construir qualquer castelo, vejam se as peças se encaixam".



Peguem uma história e repartam-na em pequenos cubos, como aqueles com que as crianças montam um castelo de plástico. Imaginem que o “o quê” fosse um bloco, o “quando” outro, o “porquê” também e assim por diante. Agora, deem os blocos para duas pessoas o reconstruírem. Dificilmente, teríamos dois castelos parecidos.


A Justiça criminal assiste cotidianamente a esse pequeno e grave jogo de remontar blocos para chegar a fatos pretéritos. Ao contrário da brincadeira infantil, as peças da vida real são ordenadas nos tribunais por pessoas com interesses particulares, às vezes nunca descobertos, nem mesmo pelos cuidadosos e atentos juízes.


Ainda esses dias uma jovem de classe social acima da média foi acusada de manter uma mulher de 60 anos de idade em trabalho análogo ao de escravidão. Imediatamente, redes sociais, influenciadores da matrix e mesmo o mundo real agiram para destruir sua reputação, causando-lhe estrago para todo o sempre. Lembremo-nos que o “direito ao esquecimento” termina no campo de pesquisa do Google.


E agora assim está. Essa moça foi demitida do emprego, seu nome constará nos registros como antiga senhora de engenho paulistana – daquelas bem pérfidas. A Justiça criminal tem o compromisso, apenas e exclusivamente, de confirmar a condenação pública a que ela foi submetida.

Mas, se essa história fosse contada de modo em que todas as peças ocupassem lugares diferentes, revelando então que a montagem prévia estava enviesada, de forma espúria e injusta? Quem pediria desculpas à jovem pelo julgamento leviano?


Em rede social de comunicação, este articulista recebeu as “peças” do inquérito policial de um grupo “condenador”. Foi uma fantasia perguntar se alguém deles leu o que constava naquele arquivo. Tomando o cuidado de observar cada detalhe, com a atenção que nós, profissionais do direito, devemos ter, percebi que aquele castelo tinha sido feito por crianças, não por profissionais.

Primeiro, havia a informação de que a senhora, vítima, seria incapaz. Para registro, as pessoas incapazes (idosos, menores, portadores de problemas psicológicos etc.) recebem proteção do direito penal quanto a maus tratos e possíveis abandonos.

Fonte: THIAGO ANASTÁCIO - CB

 
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