Presidente da Fundação Palmares precisa ler os livros que o pai escreveu

O atual presidente da Fundação Cultural Palmares, Sergio Camargo, tenta destruir uma luta histórica, construída por um movimento que teve como um dos protagonistas, seu pai, Oswaldo de Camargo.


Oswaldo de Camargo, pai de Sergio Camargo, é ícone do movimento negro no Brasil

Nascido em 1936, em Bragança (SP), o poeta, ficcionista, crítico literário, jornalista e músico Oswaldo de Camargo, desde a juventude deu a sua contribuição ao movimento que o filho chamou de "escória maldita" que abriga "vagabundos.



Em entrevista recente, Oswaldo afirmou pertencer ao "mais antigo movimento negro do país, feito com palavras", em referência à sua atuação na imprensa e na literatura.


Na década de 1950, participou de entidades negras, como a Associação Cultural do Negro, em São Paulo, em um momento de extrema segregação racial de um país que não dava ouvidos às vozes que se rebelavam contra o racismo.


Seu primeiro livro de poemas, "Um Homem Tenta Ser Anjo", foi publicado em 1959. Logo depois lançou "15 Poemas Negros", em 1961, com prefácio do sociólogo Florestan Fernandes. No mesmo período contribuía em veículos da imprensa negra paulista, como os jornais Novo Horizonte e O Ébano e a revista Níger, da qual foi redator-chefe.



Cadernos Negros: um marco Em 1978, em plena ditadura militar (1964-1985), Oswaldo de Camargo integrou o grupo que criou a publicação Cadernos Negros, uma das mais importantes iniciativas para a divulgação da literatura feita por pessoas negras no Brasil.


Oswaldo Camargo foi a ponte necessária entre os pioneiros na luta pela inserção na sociedade pós-escravidão e uma nova geração que utilizava a escrita para exigir o reconhecimento da contribuição dos negros ao país.


Até hoje, Cadernos Negros, publicado pelo QuilombHoje, é responsável pela circulação de poesias e contos produzidos por escritores negros e negras de todo o país.


Negro escrito


Oswaldo de Camargo é autor de cerca de 20 obras, entre poesia, ficção, biografia de poetas negros, críticas e ensaios literários. Além de participações em uma dezena de antologias.


O livro "Negro Escrito: Apontamentos sobre a Presença do Negro na Literatura Brasileira", de 1987, é considerado um dos mais importantes para a construção de uma consciência negra no Brasil. Na obra, Oswaldo faz um mapeamento histórico e crítico dos pioneiros na literatura afrobrasileira e de expressivos nomes do século 20.


Com o filho, "distância de ideias"



Sergio Camargo, presidente da Fundação Palmares

Em um raro momento em que se posicionou sobre o comportamento do filho à frente do órgão público de preservação da arte e cultura negras, Oswaldo de Camargo disse que nunca houve atrito entre eles e "apenas há a distância de ideias, um valor bastante fundo". E recomendou.


"Nessa história da Fundação Palmares, a despeito de toda a revisão que se tente, persistirá o que tiver solidez histórica e cultural. A única fórmula para saber mesmo qual é minha posição diante da gestão do Sérgio é ler meus livros".


A Companhia das Letras já anunciou para 2021 o relançamento de três obras de Oswaldo de Camargo: "15 Poemas Negros"; o livro de contos "O Carro do Êxito", de 1972, e a novela "A Descoberta do Frio", de 1979.


Sergio Camargo ataca Zumbi e retira apoio ao 20 de Novembro


Já o filho, Sergio Camargo, que já xingou Zumbi, preferiu celebrar o 13 de maio e declarou que a Fundação Palmares não dará nenhum apoio às atividades do 20 de novembro.


Cumprindo uma agenda bolsonarista de caça ideológica a diversos movimentos de afirmação de direitos, liberdades e lutas por cidadania, Sergio integra esse momento em que, como diz os versos do pai:


"sopram ventos desatados


por mãos de mando, turvam o sentido do que sonhamos".


A história mostrará a brevidade das declarações do filho e a eternidade das obras do pai.


O movimento negro, que nunca navegou em mares calmos, permanecerá...


Faça tempo bom ou tempo ruim.


** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Real Notícias


Fonte: Uol/ André Santana

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