Prince, 14 anos. A longa viagem escondido no leme de um navio

O menino saiu de casa sem avisar a família em Lagos, na Nigéria, e embarcou clandestinamente num petroleiro gigante onde se escondeu no orifício do leme. Ali viajou 15 dias num risco permanente de morte.

Sonha ser advogado.


Eu queria uma vida melhor", confessa Prince, 14 anos, agora a salvo num centro de acolhimento para imigrantes nas ilhas Canárias. Partiu de Lagos, Nigéria, e passou 15 dias escondido num navio, num pequeno espaço na popa junto à lâmina do leme. Tem um sonho: ser advogado.


Contamos a sua história incrível e testemunhamos que Prince (nome fictício), que encanta os seus cuidadores no centro, parece mais maduro do que os meninos de sua idade e é generoso e sério durante a entrevista.


Saiu sem avisar a sua mãe ou a irmã mais velha, suas referências, e não se despediu dos seus dois irmãos mais novos.


Prince contou que terminou o ensino secundário em Lagos e que sua família não tinha como pagar os seus estudos. Saiu sem avisar a mãe ou a irmã mais velha, as suas referências, e não se despediu dos dois irmãos mais novos.


"Se eu os tivesse avisado, eles nunca me teriam deixado ir". Logo no primeiro dia em que dormiu e se alimentou bem depois de ter sido resgatado, exclamou que se sentiu "vitorioso" após tantos dias de sofrimento. Até partilhou logo o seu sonho: ser advogado.


Era de manhã cedo quando este menino nigeriano ouviu três homens a planear, no porto de Lagos, como embarcariam num cargueiro para chegar à Espanha.


Escondido, seguiu-os até o navio, observando como pegaram numa canoa para chegar ao enorme cargueiro e com uma escada subiram até um pequeno espaço na popa onde está localizada a lâmina do leme.


Não pensou duas vezes: imitou aqueles homens e, também clandestinamente, entrou na água e subiu até ao tal orifício. Era o princípio de uma longa jornada a bordo do Ocean Princess I, um monstro de 183 metros de comprimento que navega pelos mares carregado com 50.000 toneladas de combustível.


Prince pensava que a viagem duraria apenas algumas horas, talvez um dia, mas demorou duas semanas, parando no porto de Lomé, capital do Togo. Chegou a Las Palmas de Gran Canaria a 23 de novembro passado.



Muito frio e muito medo


A viagem, naquele buraco com cerca de dois metros quadrados junto à lâmina que direciona o curso do navio, foi terrível. Os seus companheiros de viagem passavam grande parte do tempo em conflito: tinham espaço para se sentarem, mas só se podiam deitar e dormir em turnos.


"Eu estava com muito frio, estava com muito medo, pensei que fosse morrer"


Uma onda mais forte a bater no casco do navio ou um descuido podia levar à morte certa no oceano. "Eu estava com muito frio, estava com muito medo, pensei que fosse morrer. Não tínhamos comida e usei a escada para pegar água do mar com as mãos e poder beber", contou o adolescente através de uma videochamada do centro juvenil onde está de quarentena.


Segundo o jornal El País, nos últimos quatro meses, várias pessoas foram resgatadas tentando chegar às Ilhas Canárias por essa rota. É impossível saber quantos morreram no caminho.


Após dez dias de viagem, os passageiros clandestinos estavam enfraquecidos e sem terra à vista. A situação era insustentável. Prince contou que, nessa altura, o desespero chegou a um ponto tal que os adultos consideraram seriamente saltar para o mar e nadar para lugar nenhum.


"Tínhamos um martelo e batíamos no casco do navio para a tripulação nos ajudar. Claro que nos ouviram, mas ninguém nos respondeu ", lembra. "Bater com o martelo é como um seguro de vida. Um navio desses tem milhares de ruídos, se gritar ninguém ouve e bater na placa é a única forma de alertar a tripulação. Num dos resgates, foi o próprio capitão quem deu o aviso no porto após ouvir os golpes ", explica o inspetor-chefe da polícia do porto de Las Palmas de Gran Canaria, Manuel Rodríguez.


Rotas perigosas


Este porto, escala dos grandes cargueiros que saem da costa africana rumo ao norte da Europa, sempre recebeu clandestinos, mas esta forma extrema de emigração para o arquipélago disparou em 2020.


Os números não são muito elevados - principalmente em comparação com o fluxo migratório de 20.000 pessoas que chegaram este ano às ilhas em barcos - mas a sua frequência surpreendeu as autoridades que alertam para o enorme risco desta rota.




Este ano, em apenas quatro meses, as equipas de salvamento marítimo tiveram de intervir cinco vezes para retirar 20 pessoas do leme de enormes cargueiros


Este ano, em apenas quatro meses, as equipas de salvamento marítimo tiveram de intervir cinco vezes para retirar 20 pessoas do leme de enormes cargueiros. Em 2019 não tinha sido registado nenhum caso.


"Estas pessoas sobem quando os navios estão vazios porque o casco fica menos submerso. Normalmente, os petroleiros sobem descarregados para a Europa e descem carregados com o combustível refinado. É uma aventura perigosa que muitas vezes acaba mal ", afirmou ao jornal o chefe da Coordenação de Resgate de Las Palmas, Roberto Bastarreche.


Os resgatados são, na sua maioria, nigerianos muito jovens, que se escondem principalmente em camiões-tanques com bandeiras da Libéria, Grécia ou mesmo das Ilhas Marshall.


Sem aquela rede, é preciso combinar horários para dormir e agarrarem-se uns aos outros para não cair.


Prince foi o único menor até agora detetado. A viagem exige que se esteja sentado e alguns destes clandestinos têm uma espécie de rede com cordas a que se podem amarrar e descansar. Sem aquela rede, é preciso combinar horários para dormir e agarrarem-se uns aos outros para não cair.


"É muito perigoso, se você adormece ou ocorre um golpe no mar, você cai ou bate na hélice", explica o inspetor Rodríguez. De acordo com seus registos, além dos resgatados nas caixas do leme, este ano outros 13 passageiros clandestinos chegaram em porões e contentores.


Desespero e mais vigilância


A razão para se decidirem por uma viagem tão arriscada é a mesma que empurra centenas de emigrantes a cruzar rotas tão perigosas quanto a das Ilhas Canárias em canoas lotadas: desespero e vigilância mais apertada noutros modus operandi.


"Os capitães e proprietários dos barcos reforçaram a segurança para evitar que passageiros clandestinos entrem em seus barcos. Ao chegar a certos portos, como Lagos ou Conakry, essas pessoas procuram outras formas de embarcar. Costumam usar um bote que fica atrás do navio e os ajuda a subir", explica Rodríguez. Os armadores, segundo o agente, já estão medindo e colocando chapas nesse orifício.

 
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