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Rosângela Moro revela conflito conjugal por ter criticado governo Bolsonaro

Esposa do ex-ministro registrou em livro os bastidores da passagem do marido pela Lava-Jato e pelo Planalto


Casada há 21 anos com o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro, Rosângela Wolff Moro é uma mulher apaixonada. Essa é a característica mais marcante do livro Os dias mais intensos: uma história pessoal de Sergio Moro, que ela acaba de lançar pela editora Planeta (152 p., R$ 44,90,). Na obra, ela descreve os momentos que viveu ao lado do marido durante o período de quinze meses em que ele foi um dos homens mais importantes do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), bem como suas impressões sobre a Operação Lava-Jato.


A advogada pinta o cônjuge como uma espécie de herói. Aos olhos dela, Moro é um homem imparcial, estudioso, de invejável retidão, que não comete deslizes. Não se observa, por parte da autora, um esforço de isenção, necessário para equilibrar qualquer narrativa, até mesmo as mais pessoais.


Rosângela também fica também devendo ao leitor um relato mais realista e aprofundado sobre como a passagem de Moro pelo Planalto afetou o relacionamento do casal. A publicação menciona um único momento de tensão entre os dois: o episódio em que a advogada apagou um post publicado em seu perfil no Instagram a pedido do marido. A mensagem manifestava apoio ao então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, o que não agradou a Bolsonaro. O fato, contudo, é relatado sem muitos detalhes.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida virtualmente ao Estado de Minas.


Ao deixar o governo, o ex-ministro Sergio Moro disse que o presidente havia prometido a ele autonomia e liberdade para desenvolver um trabalho técnico, mas não cumpriu essa promessa. Ocorre que Bolsonaro não é um político estreante. Ao longo de sua trajetória no Legislativo, ele demonstrou que não era exatamente afeito a quadros técnicos. Praticou até mesmo nepotismo. A senhora chegou a antever que embarcar no atual governo poderia ser um equívoco e alertou o seu marido sobre isso?



Veja: na candidatura de 2018, a Lava-Jato, com a chama muito acesa, foi uma bandeira que fez parte da campanha presidencial de maneira significativa. Eu não conhecia a fundo a trajetória de Bolsonaro, embora soubesse que ele tinha algumas falhas, algumas posturas inapropriadas e polêmicas. Mas, naquele cenário de 2018, tudo o que ele falou na campanha era, sim, uma bandeira que agradava. O combate à corrupção, cercar-se de pessoas absolutamente técnicas… Ele iniciou o mandato cercado de pessoas técnicas. Eu não me recordo de, até então, ter visto um time de ministros com 100% de pessoas técnicas, com currículos tão significativos. Acontece que, depois, o presidente não deu autonomia aos técnicos.


Quando o Sergio recebeu esse convite, ele não pensou na carreira dele em nenhum momento. Aceitou justamente porque, naquele clima de mudança, na venda do pacote da campanha, com outros ministros de grande envergadura se juntando ao governo, ele achou que poderia, sim, sedimentar os avanços da Lava-Jato. A Lava-Jato mostrou um esquema de corrupção gravíssimo, que não faz bem ao país. Então, ele entendeu que, fora do Judiciário, dentro do Executivo, com o apoio do Planalto, poderia encampar a pauta anticorrupção. Ele acreditou, sim, que poderia consolidar isso. Nem passou pela cabeça dele que o cargo era uma espécie de promoção. Até porque, se você compara o cargo de juiz com o cargo de ministro – e eu não estou dizendo que um é melhor ou pior do que outro –, do ponto de vista do conforto pessoal ou financeiro, da estabilidade, o cargo de magistrado é muito melhor. Magistrado passa no concurso e tem um emprego vitalício, o ministro, não. Então, em nenhum momento esse assunto veio à discussão. As reflexões foram num outro sentido. No sentido de acreditar que seria possível sedimentar (as conquistas da Lava-Jato).


Foi uma decisão difícil, porque ele rompeu com 22 anos de magistratura. Ele entrou querendo que desse certo, para cumprir os quatro anos deste governo na condição de ministro. Infelizmente, as pautas se distanciaram. E, quando ele entendeu que não poderia mais levar adiante a função dele para dar o resultado que o presidente e os eleitores esperavam, aí, ele desembarcou do governo.


A senhora, então, compartilhava das mesmas expectativas do seu marido com relação a este governo. É isso?


A minha visão, como esposa, é de que se trata da profissão dele. E eu não queria nem quero ser casada com uma pessoa frustrada no seu ofício. Logo, não o influenciei em nada, não falei “vá”, nem “não vá”. A gente analisou o cenário e eu disse “meu querido, a decisão é sua e, no que você decidir, é claro que eu vou te apoiar”. Ele tem de estar feliz, realizado fazendo seu trabalho. Não quero ser a causa da frustração de ninguém.


Agora, quando ele já estava no governo, em agosto de 2019, quando eu vi as “frituras”, o modus operandi do “vou fritar um ministro” acontecer e percebi que isso ia acontecer com ele, aquilo magoou um pouco. Porque isso vinha de pessoas do próprio Planalto, do time que estava em campo para ganhar. Então, esses ataques doeram mais que aqueles que vieram da oposição, de pessoas de outras vertentes. Ali, sim, me bateu uma intuição. Ali eu intuí que não ia dar certo, porque o Sergio não entrou no governo para ser subserviente, para fazer a vontade de ninguém. Ele é uma pessoa que se dedica muito. O primeiro programa que ele lançou no ministério foi “Faça a coisa certa”. Se ele não tivesse esse perfil de fazer a coisa certa, do império da lei, do devido processo legal, a Lava-Jato não teria condenado as pessoas que condenou ou mostrado os crimes que mostrou.



Moro parece ter interesse em dar continuidade à carreira política. Nesse caso, a participação no governo Bolsonaro….

(Interrompe a pergunta). Isso é você quem está falando.


A senhora não confirma esse interesse?


Veja, o Sergio está se reinserindo na iniciativa privada, é o que a gente tem para hoje.


Mas a possibilidade de dar continuidade à carreira política está descartada?


Veja, a gente tem de trabalhar com o dia de hoje. E o dia de hoje é: ele não é mais juiz e não é mais ministro. E, assim, como todo mundo, tem contas a pagar. Água, luz, telefone, escola, os boletos chegam aos montes aqui todo final do mês. O Sergio já se inseriu na iniciativa privada e esse é o nosso foco hoje. Não temos como viver confabulando, pensando no que vai acontecer no período de um ano, dois, dez anos. Por enquanto, está programado assim: trabalhar na iniciativa privada e pagar as contas no fim do mês.


Bom, de todo modo, o que eu ia perguntar é...

(Interrompe novamente a pergunta) De novo, é você quem está falando. Eu não falei isso para você. O Sergio acabou de ser contratado por uma empresa privada. Portanto, nosso foco, no momento, é esse. E mais detalhes sobre o que vamos fazer no âmbito da nossa vida privada talvez nem caibam nessa entrevista porque o Sergio não exerce mais uma função pública. É merecido que a gente tenha um pouco mais de privacidade agora.


Mas na hipótese de uma possível candidatura à Presidência do Moro, a senhora considera que ter passado pelo governo Bolsonaro possa manchar o currículo dele? Era isso o que eu ia perguntar.


Olha, eu nem tenho resposta para isso. Esses assuntos não estão aqui na nossa pauta.


Vamos falar então sobre a reinserção do seu marido na iniciativa privada. Moro foi contratado recentemente pela consultoria americana Álvarez & Marsal. Um dos principais clientes dessa empresa é a Odebrecht, uma das empreiteiras mais afetadas pela operação Lava-Jato. O ex-ministro recebeu críticas até mesmo de aliados por ter aceitado o cargo. A senhora chegou a ponderar com ele as questões éticas relacionadas a essa oferta de emprego?


Sobre essa questão, que diz respeito às escolhas profissionais do Sergio, você deveria perguntar a ele. Quanto às críticas, se Sergio decidir hoje fazer vestibular para medicina, vão criticar. Se decidir comprar um caminhão de frutas e vender na esquina, vão criticar. Ele está sempre no radar das pessoas. A gente espera que, agora, na iniciativa privada, isso baixe um pouco e a gente possa ter um pouco mais de privacidade. Não posso entrar em detalhes sobre a contratação, até porque ela tem cláusula de confidencialidade. E eu não sou parte do contrato. Então, não me sinto à vontade para falar. Mas as críticas me parecem partir de pessoas que sequer sabem o que é uma empresa como a Álvarez & Marsal. Não é um escritório de advocacia, não vai fazer defesa de uma empresa ou de outra.


Em abril deste ano, a senhora deletou um post no Instagram em que elogiava a atuação do então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. A senhora já disse publicamente que foi o Moro quem pediu que a mensagem fosse apagada. Esse pedido gerou algum conflito conjugal?


É claro que gerou. As pessoas, de uma maneira equivocada, acham que, quando eu falo, é ele falando e vice-versa. E não é isso. A gente pensa muito igual sobre muitas coisas, mas cada um se expressa à sua maneira. Sobre aquele post, é o seguinte. Eu trabalho com associações de pessoas com doenças raras, tema que envolve o direito à saúde e que me é muito caro. Quando surgiu, então, a COVID, primeiro, eu fiquei muito feliz com o fato de que tínhamos um médico na pasta da Saúde. Me causava um alento saber disso, que havia um médico ali e um médico com experiência na gestão do SUS. O brasileiro não estava acostumado com ministros técnicos. Mas nós passamos a um momento de negacionismo dentro do Planalto, que me causou muita preocupação. E, aí, eu coloquei, sim, uma mensagem de apoio ao Mandetta. Não com o objetivo de ofender ou provocar o presidente, mas no sentido de chamar as pessoas à reflexão de que, em se tratando de saúde, precisávamos ouvir os médicos. Essa é a segurança que as pessoas precisam ter, não podemos nos basear em achismos.


Essa mensagem parece que gerou um desconforto. O presidente cobrou do meu marido uma explicação. Ninguém pode discordar nesse governo. Eu não digo nem criticar, não pode nem discordar. Porque, se você discorda, vira inimigo número um. Houve, então, um constrangimento, o Sergio também não tinha total liberdade para discordar – em que pese o fato de que ele nunca teve uma postura negacionista. O presidente cobrou dele e ele me pediu que apagasse o post.


O presidente mostrou para o Sergio um print da sua mensagem e foi tirar satisfação? Como foi?


Deve ter mostrado, eu não me recordo desses detalhes menores. Sei que houve um desconforto. É claro que eu não fiquei feliz em apagar o post, mas, entre ser feliz e ter razão… daí eu disse “Ah, tá bom, não vou ficar criando confusão. Vamos fluir a vida com outras coisas”. Mas continuo pensando que, entre ciência e achismo, na questão da saúde, deve prevalecer a ciência.


No seu livro, a senhora cita que, em 2019, após o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, o tema que dominou a atenção do presidente durante a viagem de volta foi a saída do Brasil do ex-deputado federal Jean Wyllys. A senhora, no entanto, não diz exatamente o que aconteceu. Por qual motivo? Poderia dar esses detalhes aos seus leitores agora?


É curioso que isso tenha acontecido num grande evento, de repercussão mundial, em que as pessoas estão tratando sobre temas como abertura do comércio internacional, mercados, economia e meio-ambiente. O natural, para mim, seria que as pessoas comentassem o que aconteceu no fórum, suas percepções, os painéis. Mas o que dominou as conversas, pelo jeito, foi esse outro assunto, o fato de um parlamentar ter saído do Brasil.


Mas o que foi dito em Davos sobre isso? Em quais termos? Com qual tom? Não me diga que o seu marido também pediu para censurar essa parte!


Mas não tem mais detalhes. O que o livro mostra é isso, você sai de um fórum econômico mundial, tem a chance de trocar com a sua equipe as suas percepções, mas o assunto que domina é de menor importância. Foi isso que eu quis mostrar.


Como ficou a convivência familiar durante a Lava-Jato e, posteriormente, após a saída do Sergio Moro do ministério, como desafeto do presidente? Como lidaram com os haters? Em algum momento, alguém teve que recorrer a um antidepressivo?

Todo mundo se lembra do Sergio como juiz da Lava-jato, mas a carreira dele de juiz começou em 1996. Ele já havia conduzido outros casos de grande impacto na sociedade, ao prender membros de organizações ligadas ao tráfico de drogas, por exemplo. Logo, isso de ter a segurança ameaçada já havia sido experimentado antes pela nossa família. Na época da Lava-Jato, o mais difícil de assimilar foi a questão do assédio. Em que pese o fato de a Lava-Jato envolver um grupo grande, com membros não só da magistratura, como também Ministério Público e da Polícia Federal, por algum motivo as pessoas associam a operação sempre ao rosto do Sergio. E isso nos deixou surpresos. Como assim? Um juiz que trabalha trancado em seu gabinete dez horas por dia, de repente, passa a ser tratado como se fosse artista, uma pessoa pública? Então, essa parte foi a mais difícil: aprender a lidar com esse assédio. Com esse rótulo de “celebridade”, por mais que a gente evitasse. Não entendemos por que ele foi escolhido como rosto-símbolo da Lava-Jato. Outras pessoas desenvolveram trabalhos igualmente relevantes nessa operação.




O que você diria da sua convivência com o presidente Jair Bolsonaro?


Eu estive com o presidente pouquíssimas vezes. Eu o conheci pessoalmente – e rapidamente – na cerimônia de diplomação. Depois, estive com ele durante a assinatura de uma Medida Provisória, aquela que permite a venda de bens apreendidos, uma coisa assim. (MP 885/2019, editada em 9 de outubro de 2019, que facilita o repasse de recursos decorrentes da venda de bens apreendidos do tráfico de drogas aos estados e ao Distrito Federal). Houve uma solenidade do Planalto e eu fui acompanhando o Sergio. Eles conversaram rapidinho entre eles, eu então cumprimentei o presidente. E uma outra vez que eu vi o Bolsonaro foi numa visita de cortesia dentro do hospital, logo após uma daquelas cirurgias que ele fez. Eram situações em que o Sergio e ele tinham assuntos a tratar, eu apenas estava presente,

não pude interagir muito.


A senhora fala do seu marido de maneira apaixonada – ao menos é essa a impressão de quem lê o seu livro.


E é claro que eu sou (apaixonada). Absolutamente. A gente se dá superbem, a gente pensa muito igual. Temos uma relação de muita cumplicidade. Quando ele mais precisou de apoio, eu estava junto. Antes de ele assumir o ministério, houve um período em que eu me ausentava muito por causa do meu trabalho. Mas a gente ficava tranquilo porque sempre um dos dois estava em casa com a família, com os filhos. Quando era eu que precisava viajar, estar fora de casa, ele sempre me apoiou. Os dias que ele passou no ministério foram intensos, tivemos de nos adaptar. Mas quando o lar tem respeito, amor e cumplicidade, as pessoas conseguem dar conta. Fora isso, sim, sim, sou muito apaixonada por ele. Ele abre a porta do carro pra mim até hoje, manda flores…


Deixa bilhetinhos?

Aí não, menos! (risos)


Não acha que faltou expor, no seu livro, um pouco dos conflitos que vocês viveram durante esses dias mais intensos? Imagino que eles devam ter existido…


O que eu tinha para falar sobre essa questão dos conflitos abordei quando contei sobre o post apagado. Eu vejo o Sergio como uma pessoa muito estudiosa, ele lê muito. Tenho muita certeza de que ele faz o melhor no trabalho dele. Seja na Justiça, seja no ministério, seja na iniciativa privada. Então, eu não tenho momentos de crítica para te relatar.

 
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