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Terceira via ganha atenção do eleitor, mas ainda bate cabeça atrás de apoio popular

Levantamento do Atlas Político mostra que passou de 23% em julho para 28% este mês o número de pessoas que buscam uma alternativa a Lula e Bolsonaro.


O senador Rodrigo Pacheco durante entrevista em fevereiro

Faz só uma semana que os grupos Movimento Brasil Livre e Vem Pra Rua realizaram atos para medir nas ruas a temperatura de uma eventual terceira via para as eleições de 2022. Com o mote nem Lula nem Bolsonaro, trocado às pressas de última hora para Fora Bolsonaro, a convocatória terminou em um esvaziado protesto de 12 de setembro. Foi o deleite para os seguidores do ex-presidente petista, que lidera as pesquisas eleitorais, e para os bolsonaristas, que estão em segundo lugar nas intenções de voto a um ano do pleito do ano que vem. A última pesquisa do instituto Datafolha, divulgada no dia 17, mostra que Lula lidera em todos os cenários, e tem vitória certa num segundo turno contra Bolsonaro, com 56% a 31, isso se os institutos de pesquisas estiverem certo. Pois, nas eleições recentes, tem errado demais.


Mas fora do Fla-Flu nas redes sociais que lulistas e bolsonaristas levantaram pelo resultado do ato do dia 12, o brasileiro está mais atento a buscar alternativas do que parece. Um levantamento do Atlas Político mostra que, neste momento, há 28% de eleitores que esperam uma nova candidatura fora dos dois nomes que lideram as preferências. Em julho, eram 23%. “Houve uma pequena queda tanto do Lula como de Bolsonaro, mais deste último”, observa Andrei Roman, CEO da Atlas Político. Também o mais recente Datafolha mostra que 38% dos brasileiros ainda não sabem qual é seu candidato, o que deixa uma avenida enorme para novos nomes a entrarem na peleja.


Uma coisa é certa. O PT conta com a ignorância e a pureza dos jovens, e também, de cidadãos que estão passando necessidade básicas ou mesmo esquerdistas para manter Lula como líder nas pesquisas de opinião. Os jovens são mais preocupados em defender rótulos como: direitos de grupos minoritários, pois são causas importantes e que moldam uma sociedade mas não prestam a devida atenção a economia ou mesmo o desenvolvimento da infra estrutura do país.

Faltando um ano para as eleições e depois de quase três anos de um Governo de direita que alguns dizem que ataca a democracia e outros enchem os pulmões para dizer que o governo Bolsonaro é democracia pura, nunca houve tanta pressa em marcar posição como em outros tempos. São 11 legendas trabalhando para construir uma terceira via até se tornar competitiva no ano que vem. O presidente do partido Cidadania, o ex-deputado Roberto Freire, diz que a campanha eleitoral se antecipou de uma maneira até então inédita. “Nunca tivemos de discutir nomes com tanta antecedência”, afirma. Seu partido é um dos que participa das negociações pela terceira via, que tem como potencial candidato à presidência o senador pelo Sergipe Alessandro Vieira.


Vieira esteve na avenida Paulista discursando para o público presente, assim como o pedetista Ciro Gomes, a senadora Simone Tebet (MDB-MS), o governador João Doria (PSDB-SP), e o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS). Foi a primeira vez que todos eles mostraram juntos a cara nas ruas. Até o momento, as articulações têm ficado por conta de reuniões semanais entre dirigentes partidários e incontáveis debates online em busca de convergências. A primeira delas, a temática impeachment do presidente Bolsonaro, especialmente depois da ousadia golpista do mandatário diante de seu público nos atos do dia 7 de setembro.


No entanto, falta consenso sobre quem seria bom de voto para as urnas de 2022, que pudesse catalisar articulações em torno do seu nome. Por ora, o país vive a fase de balão de ensaio, em que vários políticos testam a aceitação junto a potenciais eleitores, para trabalhar articulações em torno do mais prestigiado. “O principal de tudo é a falta de um nome. Não há líderes nesse grupo”, diz a cientista política Carolina Botelho, pesquisadora do Laboratório de Neurociência da Universidade Mackenzie e do Laboratório de Estudos Eleitorais, das universidades IESP e UERJ. No atual cenário, avalia Roberto Freire, a oposição ao Governo Bolsonaro tem de se articular em duas frentes: se estruturar para a eleição, e pressionar pelo impeachment. “Estou mais otimista do que muita gente. Ainda estamos no primórdio de uma articulação contra o presidente. É a fase de comando de agitação e propaganda”, afirmou Freire.


Desde que as discussões sobre um caminho alternativo a Lula e Bolsonaro surgiram, três nomes já ficaram pelo caminho: o do apresentador Luciano Huck, que decidiu assinar um novo contrato com a Rede Globo, o do ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro, que se afastou do debate sobre candidatura, e o do ex-dirigente do Novo João Amoêdo, que desistiu após deputados de seu partido insistirem no apoio ao Governo. Se os diálogos avançarem, outros deverão ficar pelo caminho até meados de fevereiro de 2022.

Até o momento, um dos nomes mais cotados, já testado pelas pesquisas, é o de Ciro Gomes (PDT), que em 2018 ficou na terceira posição. Atualmente, ele também ocupa a terceira colocação nas pesquisas, com até 12% dependendo do cenário. Mas dirigentes das demais legendas afirmam que Ciro não teria o apoio deles em uma suposta frente ampla e não representaria esse caminho à polarização entre Lula e Bolsonaro.


Ciro Gomes discursa no protesto do dia 12 de setembro

O ex-governador do Ceará e ex-ministro se identificaria com o mesmo eleitorado de Lula e a avaliação é que, com o andar da campanha, ele pode perder apoio. “O Ciro se perdeu num personagem que nem ele mesmo acredita. Ele tinha um vigor, era um candidato de esquerda, agora não se identifica nem com um lado nem com o outro. Tem um discurso meio confuso. Não convence nem os partidos de centro direita e parece estar perdendo apoio de uma parte da esquerda”, disse a pesquisadora Carolina Botelho.


Outros potenciais candidatos, que já aparecem nas pesquisas de opinião, são os governadores tucanos João Doria Jr., de São Paulo e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. A disputa entre os dois nomes do PSDB é algo que deve ser resolvido nas prévias do partido marcadas para o final de novembro. A rejeição a Doria, no entanto, o coloca em desvantagem. Conforme o Datafolha, o paulista é o terceiro mais rejeitado —atrás de Bolsonaro (59%) e Lula (38%)— com 37%. Leite, por sua vez, se beneficia pelo fato de ainda ser pouco conhecido e tem uma rejeição bem menor —18%, a sétima entre 11 candidatos testados.


A meta do partido é, definida a candidatura, investir em comunicação para, o quanto antes, se chegar aos 15% nas pesquisas. Nos cenários testados até o momento, nenhum dos nomes da terceira via ultrapassa os 5% de apoio. “Se chegarmos aos 15% passaremos a ser vistos como uma boa opção à polarização e atingiremos rapidamente em torno de 25% dos votos, o que deve nos colocar no segundo turno. O difícil é chegar aos 15%”, pondera Marcus Pestana, ex-deputado e presidente do Conselho Curador do Instituto Teotônio Vilela, uma fundação do PSDB que promove debates políticos e prepara as estratégias eleitorais.

O PSDB tem hoje um grupo rachado de deputados que oscila entre fazer oposição a Bolsonaro e seguir apoiando as pautas do Governo. Isso ficou explícito na votação em agosto do projeto de recriação do voto impresso e no apoio ao impeachment, manifestado pelo presidente do partido, Bruno Araújo, logo após os atos golpistas de 7 de setembro. Vários políticos saíram a público para ponderar essa decisão, mostrando a falta de consenso do tucanato.


Na Câmara, por mais que o partido tenha orientado a votar contra o voto impresso, uma pauta claramente bolsonarista, 14 de seus 31 deputados contrariaram as ordens da legenda. E como ser terceira via se ainda tem esse grupo alinhado com o atual presidente? “Nós temos primeiro que resolver esse nosso problema interno, para depois seguir aprofundando nossas conversas com os outros partidos. E isso não quer dizer que o nosso nome será o candidato do grupo todo”, diz Pestana. Tanto o PSDB como os demais ainda têm o tempo a seu favor até a campanha eleitoral de fato. “O ex-presidente Tancredo Neves falava que, perto da eleição, o poder futuro tem mais força que o poder presente. Ou seja, quando você gera expectativa de poder, os oportunistas largam o osso e se reposicionam”, completa o ex-deputado tucano.



A senadora Simone Tebet

Correndo por fora estão o MDB, o PSD e o DEM. Os dois primeiros, no entanto, estão mais preocupados com disputas regionais e com a disponibilização de cargos federais do que com o cenário das eleições à Presidência, conforme relatos de lideranças ouvidos pela reportagem. Os emedebistas têm como intenção inicial lançar o nome de Simone Tebet, que tem se destacado na CPI da Pandemia. Porém, enfrentam o entrave de o MDB ser uma legenda muito regionalizada, de olho nas disputas ao Congresso e aos governos de Estado no ano que vem, sem uma coordenação nacional. No Nordeste, por exemplo, ele tem se aproximado de Lula, e oito dos nove caciques regionais já fizeram acenos ao petista. Enquanto que na região Sul, boa parte dos filiados são bolsonaristas. Estar completamente fora de um desses palanques poderia atrapalhar as reeleições dos parlamentares.


O partido trouxe também de volta a figura do ex-presidente Michel Temer ao tabuleiro político como o interlocutor do cessar-fogo temporário de Bolsonaro com o Judiciário depois do 7 de setembro. E fez marketing de Temer com vídeos mostrando sua chegada a Brasília, e suas interações com outras lideranças políticas. Isso alimentou o noticiário político e expôs suas pretensões de se cacifar para concorrer à Presidência. A intenção do ex-presidente embaralha o meio de campo do partido, já que não tem a bênção oficial da cúpula da legenda, que queria aposentar a velha guarda e abrir passagem para os mais jovens. Mas a estratégia de Temer também é vista como um esforço de gerar empatia para concorrer a uma vaga na Câmara.


O PSD, por sua vez, presidido pelo ex-ministro Gilberto Kassab, faz uma espécie de jogo duplo. Ele não participa das conversas com as outras nove legendas que debatem a terceira via, promete analisar o apoio ao impeachment, mas também não abandona o Governo totalmente, mantendo cargos-chave na Fundação Nacional da Saúde e o Ministério das Comunicações. Kassab já convidou para se filiar ao partido e concorrer à Presidência o atual presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, hoje no DEM de Minas Gerais. O parlamentar, por sua vez, antecipou que só tomará uma decisão sobre este tema no ano que vem. “O Kassab sentiu que não dá mais para apoiar o Bolsonaro, mas ele não quer ter de apoiar o Lula logo no primeiro turno. Então, deve lançar um candidato que não rompe os polos para só na segunda etapa apoiar o Lula e ficar bem com o centro moderado”, avaliou a pesquisadora Carolina Botelho.



O governador gaúcho, Eduardo Leite, em uma reunião virtual no início de maio, em seu gabinete.

O DEM também vive o dilema de girar na órbita de Bolsonaro enquanto testa o nome do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS). O partido tem dois ministérios no Governo e o presidente da legenda, Antônio Carlos Magalhães Neto, tem articulado uma fusão com o PSL para investir em sua própria candidatura ao Governo da Bahia, assim como para fortalecer suas estruturas regionais. Antes dessa potencial união, o PSL já havia lançado o apresentador José Luiz Datena como pré-candidato.


Enquanto as conversas continuam, a dúvida é se a pauta pró-impeachment vai unir os partidos que pretendem ser terceira via. Uma barreira, neste momento, seria o PT, na visão de Roberto Freire. “Os petistas têm a avaliação de que o seu melhor adversário é o Bolsonaro. Se ele cair antes, a chance de Lula ser eleito é menor. Mas, como um dos maiores partidos do Brasil, o impeachment ganhará força se eles encamparem a tese de verdade”, analisa. Por ora, PT e o próprio Cidadania já se entenderam ao menos em uma pauta. As duas legendas definiram duas datas para protestos a favor do impeachment do presidente: 2 de outubro e 15 de novembro.


Se os protestos anti-Bolsonaro ganharem tração, o próximo passo será convencer o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), a aceitar um dos 130 pedidos que estão em sua mesa contra o chefe do Executivo. Hoje, essa ainda é uma missão impossível. Mas vai mostrar se o mundo da política pode começar a falar a mesma língua.



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