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A arte de desaparecer: o esporte favorito de quem deve e não sabe dizer "não"


O Brasil pode até não liderar todos os rankings mundiais, mas, quando o assunto é fugir de cobrança, somos fortes candidatos ao pódio. Tem gente que desenvolveu um talento tão impressionante para desaparecer que faria qualquer agente secreto pedir dicas.


O telefone toca. É o credor. Num passe de mágica, o aparelho entra em "modo decoração". Se insistirem na ligação, o celular fica "sem área". Cinco minutos depois, curiosamente, a pessoa já está postando stories, curtindo memes e comentando a foto do almoço de um amigo. Milagre da tecnologia.


No WhatsApp, o espetáculo continua. A mensagem é visualizada na mesma velocidade da luz, mas a resposta viaja em velocidade de tartaruga. O famoso "depois eu respondo" já virou patrimônio cultural de muita gente. Tem conversa aguardando resposta há tanto tempo que já pode pedir aposentadoria.


Quando o encontro é na rua, o talento chega ao auge. O devedor avista o credor de longe e, instantaneamente, descobre um interesse irresistível por uma vitrine de loja fechada, um poste, uma árvore ou até um cachorro que nunca viu na vida. Vale qualquer coisa para evitar um simples "precisamos conversar".


O mais curioso é que muitos desses artistas do desaparecimento não devem apenas dinheiro. Devem uma resposta. Porque, na maioria das vezes, o credor nem espera um caminhão de dinheiro estacionando na porta. Espera apenas respeito. Um telefonema. Uma explicação. Um "não consigo pagar agora". Mas isso parece exigir mais coragem do que escalar uma montanha.


E aí entra outro velho conhecido: a incapacidade de dizer "não". Para não decepcionar ninguém, a pessoa promete o que não pode cumprir. "Sexta eu pago." "Semana que vem está resolvido." "Estou só esperando entrar um dinheiro." O dinheiro, coitado, deve estar preso no trânsito há uns cinco anos.


A verdade é dura: fugir da cobrança não elimina a dívida. Apenas faz crescer a vergonha, o desgaste e a desconfiança. Quem some uma vez passa a ser procurado. Quem some duas vira motivo de piada. Quem vive sumindo acaba ganhando um apelido: "o invisível". Só aparece quando não tem ninguém cobrando.


Existe uma frase antiga que continua atual: quem deve não precisa se esconder; precisa conversar. Afinal, silêncio nunca quitou boleto, bloqueio no WhatsApp nunca pagou empréstimo e ignorar ligações jamais resolveu um compromisso financeiro.


O caminho mais inteligente


Se você percebe que evita atender ligações, inventa desculpas o tempo todo ou sente um peso enorme sempre que alguém cobra uma dívida, talvez o problema já não seja apenas financeiro. Pode ser emocional.


Pedir ajuda não é sinal de fraqueza. Conversar com um psicólogo pode ajudar a vencer o medo do confronto e a dificuldade de impor limites. Da mesma forma, buscar orientação financeira ou negociar diretamente com os credores costuma trazer muito mais resultado do que colecionar chamadas perdidas.


No fim das contas, dizer um sincero "não consigo pagar agora, mas quero resolver" exige muito menos esforço do que passar a vida inteira fingindo que o telefone tocou por engano.

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