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Justiça em Modo Defesa: Quando o Supremo Fala Sozinho e o País Escuta Desconfiado

Por Carlos de Mello Marques


Ministro Edson Fachin, presidente do STF, faz discurso em defesa da autocontenção do Poder Judiciário
Ministro Edson Fachin, presidente do STF, faz discurso em defesa da autocontenção do Poder Judiciário

Em tempos de credibilidade em queda livre, o silêncio institucional virou artigo de luxo — e quando ele é quebrado, não necessariamente traz alívio. Foi o que se viu com a recente manifestação do ministro Edson Fachin, que surgiu em cena não apenas como magistrado, mas como uma espécie de porta-voz informal de um tribunal que, cada vez mais, parece falar para si mesmo.


O gesto, travestido de defesa institucional e chamado de “normatização”, soa menos como organização interna e mais como contenção de danos. Em bom português: quando a casa começa a tremer, alguém precisa aparecer na varanda dizendo que está tudo sob controle — mesmo quando a vizinhança já sente o cheiro de queimado.


Nos bastidores e nas redes, a leitura é outra. A fala de Fachin não teria sido apenas uma iniciativa administrativa, mas uma tentativa de reposicionar o discurso diante de denúncias e ruídos envolvendo o sistema financeiro — com menções recorrentes ao caso do chamado “Banco Master”. Coincidência ou estratégia, o timing levanta sobrancelhas.


O problema é que, em crises de confiança, forma e conteúdo importam — e muito. Quando um integrante do Supremo Tribunal Federal aparece como “representante da turma”, a imagem projetada não é a de uma corte técnica e imparcial, mas a de um colegiado que age como bloco político. E isso, num país já polarizado, é gasolina em terreno seco.


A questão central não é apenas o que foi dito — mas o que isso revela. O Supremo, que deveria ser o árbitro final, passa a ser visto por parcelas da população como jogador em campo. E quando o juiz entra no jogo, quem apita?


A consequência é previsível: erosão de confiança. E confiança, no Judiciário, não é detalhe — é fundamento. Sem ela, decisões viram imposições, sentenças viram suspeitas e o respeito institucional começa a depender mais do medo do que da legitimidade.


Não se trata aqui de negar a importância do STF ou de seus ministros. Muito pelo contrário. O ponto é que, quanto mais poder concentrado, maior a responsabilidade de parecer — e ser — neutro. Quando essa percepção se rompe, o desgaste deixa de ser episódico e passa a ser estrutural.


E há um paradoxo incômodo: ao tentar defender a instituição, certas manifestações acabam reforçando exatamente a desconfiança que pretendiam dissipar.



No fim das contas, a pergunta que ecoa não é jurídica — é política e social: quem vigia os vigilantes quando eles começam a se explicar mais do que julgar?


Se a resposta continuar sendo dada apenas dentro do próprio sistema, o risco é claro: o Supremo pode até manter sua autoridade formal, mas perder algo muito mais difícil de recuperar — a crença pública de que ele representa, de fato, a Justiça.


Quando parece que a política “não adianta mais”, normalmente não é o fim — é um sinal de esgotamento, frustração e perda de confiança. Isso já aconteceu em vários momentos da história. A questão é o que fazer sem piorar o cenário.


O que fazer diante dessa questão? ...

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