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“Instagram, TikTok & Cia.: a farmácia clandestina onde o ‘especialista’ é quem comenta primeiro”


POR CARLOS DE MELLO MARQUES


No ritmo frenético das redes sociais, onde dancinhas viram tendências globais em horas, uma outra febre — bem menos divertida — se espalha sem controle: a “medicina de comentários”. Basta abrir qualquer vídeo ou post sobre saúde para encontrar uma verdadeira farmácia popular improvisada nos comentários. Sem diploma, sem responsabilidade e, muitas vezes, sem noção.


É ali que florescem especialistas instantâneos, formados pela Universidade do “vi no TikTok”. Um jura que a solução para tudo é Vitamina D em dose cavalar — “50 mg por semana, confia!”. Logo abaixo, outro rebate com a segurança de quem claramente acabou de inventar aquilo: “não, o correto é 7 mg”. Nenhum dos dois explica de onde tirou a informação, mas ambos falam com a convicção de um prêmio Nobel.


E assim segue o baile: gente indicando antibiótico como se fosse bala de hortelã, sugerindo combinações de suplementos que fariam um laboratório corar de vergonha, e distribuindo “protocolos” milagrosos que curam de unha encravada a crise existencial. Tudo isso em poucos caracteres e com emojis motivacionais.


O problema deixou de ser apenas constrangedor — virou uma questão de saúde pública. Especialistas já começam a observar uma verdadeira epidemia silenciosa de casos relacionados à superdosagem de vitaminas e suplementos. O que antes era visto como “inofensivo” agora aparece em consultórios e hospitais: intoxicações, sobrecarga renal, alterações metabólicas e uma coleção de efeitos colaterais que não cabem em um story de 15 segundos.


Mas nas redes, o efeito colateral mais comum continua sendo a autoconfiança exagerada.


Enquanto isso, instituições que deveriam estar na linha de frente parecem assistir de camarote. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o Ministério da Saúde e o Conselho Federal de Medicina seguem tímidos diante da avalanche de desinformação travestida de conselho médico. Em âmbito internacional, a Organização Mundial da Saúde já alertou sobre os riscos do uso indiscriminado de substâncias — mas, no mundo real das redes, esses alertas parecem competir com vídeos de 30 segundos e perder feio.


Falta, com urgência, uma normatização clara para esse tipo de conteúdo. Não se trata de censura, mas de responsabilidade. Informação sobre saúde não pode circular com o mesmo critério de um meme.


É preciso estabelecer limites: quem pode recomendar o quê, em que contexto, com quais alertas. Plataformas também precisam assumir seu papel — afinal, se conseguem identificar uma música protegida por direitos autorais em segundos, talvez consigam, com algum esforço, conter a epidemia de “doutores de internet”.



Até lá, seguimos nesse consultório virtual caótico, onde cada comentário é uma prescrição e cada curtida, um voto de confiança perigoso. No fim das contas, a única unanimidade parece ser esta: todo mundo acha que sabe. E justamente por isso, ninguém deveria estar prescrevendo nada.

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