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A República dos Intocáveis: quando o Supremo vira poder absoluto

Existe um momento em que uma democracia deixa de ser apenas um sistema político e passa a ser um teste de sanidade coletiva. O Brasil parece estar atravessando exatamente esse momento.



O país assiste, quase anestesiado, a um cenário em que ministros da mais alta Corte da República aparecem em conversas de investigados, em mesas de eventos patrocinados por grandes interesses financeiros e em narrativas que misturam poder econômico, política e Justiça. No centro da tempestade estão nomes como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, citados em reportagens sobre contatos e encontros com o banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master.


Até aqui, é importante dizer: não há condenação judicial que comprove crime. Mas o problema já ultrapassou a esfera penal. O que está em jogo agora é algo muito mais delicado: a credibilidade do sistema.


Em qualquer democracia madura, ministros de cortes supremas vivem sob uma regra não escrita, mas fundamental: evitar qualquer proximidade que possa gerar dúvida sobre sua independência. Nos Estados Unidos ou na Europa, um simples jantar patrocinado por alguém com interesses jurídicos relevantes já seria motivo para escândalo institucional.


No Brasil, aparentemente, virou apenas mais um capítulo do noticiário.

E esse é o ponto mais perturbador da crise: a normalização do absurdo.


O Supremo Tribunal Federal, que deveria ser o guardião da Constituição, transformou-se ao longo das últimas décadas em algo muito maior — e muito mais perigoso. Não é apenas uma corte constitucional. É um ator político central, com poder para abrir investigações, determinar prisões, censurar conteúdos, intervir em políticas públicas e influenciar diretamente o destino de governos.


Na prática, o Brasil criou um modelo raro no mundo: um tribunal que julga, investiga e muitas vezes atua como protagonista político ao mesmo tempo.


E quem fiscaliza esse poder?


Em teoria, o Senado poderia abrir processos de impeachment contra ministros do STF. Na realidade política brasileira, isso virou quase ficção constitucional. O resultado é um fenômeno que cientistas políticos chamam de hipertrofia institucional: quando um poder cresce tanto que os mecanismos de controle deixam de funcionar.


O problema é que a democracia depende exatamente do contrário: equilíbrio entre poderes.


Quando esse equilíbrio se rompe, surgem duas consequências perigosas. A primeira é a politização extrema da Justiça. A segunda é a perda de confiança da sociedade.




E sem confiança, não existe sistema jurídico que sobreviva.


A situação se torna ainda mais explosiva quando lembramos que foi essa mesma corte que conduziu processos e investigações envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros atores centrais da política nacional.


Independentemente da posição ideológica de cada cidadão, uma pergunta começa a ecoar cada vez mais alto nas ruas e nas redes:


Quem julga os juízes?


Essa pergunta é antiga na história das democracias. E quase sempre aparece quando instituições acumulam poder sem contrapesos efetivos.


Não se trata de defender políticos investigados ou atacar ministros específicos. Trata-se de algo muito maior: a sobrevivência da credibilidade institucional.


Democracias não morrem apenas com tanques nas ruas. Muitas vezes elas se desgastam lentamente, por dentro, quando o cidadão comum começa a olhar para as instituições e sentir que o jogo já está decidido antes mesmo de começar.


Quando isso acontece, a lei deixa de ser vista como justiça e passa a ser vista como instrumento de poder.

O Brasil ainda não chegou a esse ponto final. Mas a pergunta que paira sobre Brasília hoje é simples, incômoda e inevitável:


se até o Supremo começa a ser visto com desconfiança, qual é a última instância da confiança pública na República?


Porque quando a última instância entra em crise, a democracia não cai de uma vez.


Ela racha. Primeiro na confiança.Depois na legitimidade.E, por fim, na própria autoridade das instituições.

E nenhuma nação sai ilesa quando isso acontece.

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