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Justiça em estado de negação: quando um caso brutal perde para o calendário e a conveniência


Se alguém ainda tinha dúvida de que o Brasil normalizou o absurdo, o caso do menino Henry Borel trata de eliminar qualquer resto de ilusão. A sequência de decisões recentes — soltura da mãe, Monique Medeiros, e o adiamento do julgamento — não apenas revolta: escancara um sistema que parece mais preocupado em cumprir formalidades frias do que em responder à gravidade gritante dos fatos.


Sim, tudo “dentro da lei”. A prisão preventiva foi revista, os requisitos técnicos analisados, os ritos respeitados. No papel, impecável. Na realidade, constrangedor. Porque enquanto o juridiquês se sustenta em teses e termos rebuscados, a sociedade assiste a um espetáculo de desconexão: uma criança morta, um caso chocante, e a Justiça... desacelerando.


E então surge o argumento que beira o insulto coletivo: o julgamento precisa ser adiado — entre outros fatores — por causa da Copa do Mundo FIFA. É difícil decidir se isso soa mais como descaso ou como deboche institucionalizado. Desde quando um evento esportivo, por maior que seja, se sobrepõe à urgência de um julgamento que envolve a morte brutal de uma criança?


A impressão que fica é a de uma Justiça que se curva ao conforto, à agenda, à conveniência. Que mede o tempo não pela dor das vítimas ou pela necessidade de resposta, mas pelo calendário e pelo risco de cadeiras vazias no tribunal. Como se o problema fosse a audiência dispersa — e não a gravidade do crime.



E aqui está o ponto mais indigesto: decisões como essa até podem ser juridicamente defensáveis, mas são moralmente devastadoras. Porque corroem, pouco a pouco, o que ainda resta de confiança pública. A mensagem implícita é clara — e assustadora: o sistema funciona, mas não necessariamente para aquilo que mais importa.

Enquanto isso, o nome de Henry continua ecoando como um lembrete incômodo de tudo que deu errado. Não só na tragédia que tirou sua vida, mas também na forma como o país lida com as consequências dela.


No fim, não é só o julgamento que foi adiado. Foi também, mais uma vez, a sensação de que existe alguma urgência real quando o assunto é justiça.


E assim seguimos: um país onde até a indignação parece ter prazo — e a Justiça, quando convém, entra em modo espera.

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