Quando o “protetor” vira algoz: a masculinidade que fracassa e tenta culpar a mulher pelos próprios crimes
- Revista Real Notícias

- há 1 dia
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POR CARLOS DE MELLO MARQUES

O crime ocorrido em Itumbiara, no sul de Goiás pelo secretário de Governo da Prefeitura, Thales Naves Alves Machado, de 40 anos, não é apenas uma tragédia familiar. É o retrato cru de uma masculinidade doente que ainda insiste em se vender como força, mas que na prática revela fragilidade, ego ferido e incapacidade de lidar com frustração.
Tragédia é acidente. O que se viu foi escolha. Foi ação. Foi a travessia consciente do limite mais básico da humanidade — a proteção dos próprios filhos. Quando um homem investido de poder público, pai, figura de autoridade, rompe essa fronteira, não há retórica que suavize. Não há justificativa emocional, não há “momento de descontrole” que sustente o insustentável. O que existe é a ruptura absoluta daquilo que se refere como homem e pai.
A cidade acordou não apenas com a notícia de um crime, mas com o colapso simbólico de uma figura que ocupava posição de comando. O roteiro é conhecido: discurso firme, postura de liderança, imagem pública construída sobre autoridade. Nos bastidores, porém, a incapacidade de lidar com frustração. Quando o verniz da autoridade racha, o que aparece não é força — é descontrole.
E há ainda outro ponto que precisa ser dito, sem hipocrisia e sem distorções: a esposa. Sim, houve traição. Sim, houve ruptura conjugal. Mas infidelidade não é sentença de morte. Erro moral não é autorização para violência. Traição é questão íntima; violência é crime. Misturar as duas coisas é repetir uma lógica perversa que historicamente tenta justificar o injustificável.
A mulher, independentemente de suas falhas no campo afetivo, é vítima. Vítima de uma cultura que ainda naturaliza a ideia de que o homem traído precisa “lavar a honra”. Vítima de uma mentalidade que transforma frustração em revanche e ego ferido em agressão. Nenhuma escolha pessoal, nenhum erro conjugal, legitima a perda do controle, muito menos a violência contra quem deveria ser protegido.
É aqui que se impõe uma distinção incômoda, mas necessária: há uma diferença entre ser homem e ser macho. Homem é quem assume responsabilidade, controla impulsos, protege, respeita limites — inclusive os impostos pela frustração.
Macho é quem confunde posse com amor, autoridade com imposição e orgulho ferido com motivo para agressão. Homem constrói. Macho reage. Homem enfrenta a dor sem destruir. Macho tenta provar força quando, na verdade, revela fraqueza.
O episódio escancara algo maior que um indivíduo. Expõe uma estrutura que ainda confunde masculinidade com domínio e controle. Uma construção social que ensina que perder é humilhação, que ser contrariado é ofensa, que ceder é derrota. Quando essa lógica implode, o resultado é devastador.

Não há nota oficial que restaure credibilidade quando quem deveria zelar pelo interesse público falha no compromisso mais elementar da vida privada. Não há cargo que sirva de escudo moral.
O que Itumbiara enfrenta não é apenas o luto. É o reflexo incômodo de uma cultura que ainda tolera sinais de autoritarismo como se fossem traços de liderança. Enquanto continuarmos confundindo agressividade com firmeza e controle com competência, novos casos serão tratados como exceção — quando, na verdade, são sintomas.



































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