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Palácios de Mármore, Povo de Concreto: o abismo entre o Supremo e o cidadão comum

Enquanto ministros falam em defesa da Constituição, boa parte dos brasileiros só consegue enxergar um condomínio de luxo cercado de privilégios e distante da vida real.


Por Carlos de Mello Marques



Brasília é uma cidade feita de símbolos, mas poucos são tão simbólicos quanto o prédio do Supremo Tribunal Federal. Vidro, mármore, silêncio e ar-condicionado constante. Do lado de fora, o país ferve; do lado de dentro, a toga desliza em câmera lenta, como se o Brasil fosse um conceito abstrato e não um lugar onde gente pega três ônibus para trabalhar.


O STF gosta de se apresentar como guardião da democracia. E, de fato, exerce um papel central. O problema é que, para o cidadão comum, essa guarda parece ser feita de dentro de uma fortaleza blindada de benefícios, auxílios e uma rotina que passa longe do aperto que define a vida da maioria da população.


Salários no topo do funcionalismo, estrutura de segurança digna de chefe de Estado, carros oficiais, gabinetes robustos, assessorias numerosas. Tudo legal, tudo dentro das regras — regras essas que, curiosamente, raramente são escritas por quem vive com salário mínimo e boleto vencendo dia 5. A legalidade, aqui, não elimina a sensação de desigualdade; às vezes, só a oficializa com carimbo e assinatura.


O discurso institucional fala em “responsabilidade”, “estabilidade” e “garantias da função”. Já o brasileiro médio traduz de outro jeito: casta. A palavra pode ser exagerada do ponto de vista jurídico, mas é precisa do ponto de vista emocional. E política — inclusive a judicial — também é feita de percepção.


Quando o Supremo decide sobre os rumos do país, anula leis, interfere em políticas públicas ou entra no centro do debate político, ele deixa de ser apenas corte constitucional e vira personagem. E personagem público, no Brasil de hoje, não tem o luxo de parecer distante. Cada privilégio vira meme. Cada benefício vira combustível para a desconfiança.


Não se trata apenas de quanto ganham ou do que têm direito. Trata-se da imagem de um poder que cobra sacrifícios fiscais da população enquanto vive sob uma lógica própria, com verbas indenizatórias, penduricalhos históricos e uma estrutura que mais parece de outro planeta institucional. O cidadão olha o contracheque, olha o preço do arroz, e depois olha para Brasília. A conta não fecha — nem matemática, nem moralmente.



O STF reclama, com razão, dos ataques e da desinformação. Mas ignora, muitas vezes, que a desconfiança não nasce só de fake news: nasce também da distância. De um Judiciário que fala difícil, vive longe e custa caro. A toga, que deveria simbolizar equilíbrio, começa a parecer um manto de isolamento.


No fim das contas, o Supremo pede confiança enquanto encarna privilégio; pede respeito enquanto parece intocável; pede compreensão enquanto entrega decisões que mudam a vida de milhões sem jamais pisar na fila do SUS ou sentir o peso de um aluguel atrasado.


E assim o guardião da Constituição vai se transformando, aos olhos de muitos brasileiros, não no protetor dos direitos, mas no retrato acabado de um poder que julga o país sem realmente viver nele.

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