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Calamidade pública × responsabilidade política: um divórcio conveniente

Quando um governo decreta calamidade pública, espera-se liderança, ação imediata e transparência. O que frequentemente se vê, porém, é a transferência de culpa. E, nesse roteiro, prefeitos e governadores raramente assumem o papel principal — embora quase sempre estejam no centro das decisões que levaram ao desastre.



Chove demais? “Evento atípico.”Faz calor demais? “Fenômeno imprevisível.”Encosta desliza? “Força da natureza.”Sistema colapsa? “Demanda acima da média.”


Mas a natureza não aprova loteamentos em áreas de risco. Não autoriza construções em encostas instáveis, margens de rios ou terrenos sem infraestrutura. Não fecha os olhos para ocupações irregulares que crescem sem saneamento, drenagem, contenção ou assistência do poder público.


Prefeitos e governadores têm responsabilidade direta no planejamento urbano, na fiscalização e na política habitacional. Quando permitem — por omissão ou conveniência política — a expansão de moradias em áreas vulneráveis e a formação de comunidades sem o mínimo de estrutura, o desastre deixa de ser surpresa e passa a ser previsível.


Depois da tragédia, surgem as coletivas: “Estamos monitorando”, “Criamos um comitê”, “Haverá apuração rigorosa”. Termos como “estado de emergência” e “dispensa de licitação” entram em cena. A urgência é decretada — mas a prevenção, que deveria ter vindo antes, nunca foi prioridade.


E há outro elemento nesse cenário: a cobrança pública frequentemente é tímida. Parte da grande mídia, dependente de volumosas verbas de publicidade governamental, raramente pressiona com a mesma intensidade que exige em outros contextos. A crítica perde força, a responsabilização se dilui e o ciclo se repete.


Enquanto isso, quem age primeiro são voluntários, igrejas, ONGs e vizinhos. Organizam doações, montam abrigos e sustentam comunidades que historicamente receberam pouco mais que promessas. A solidariedade ameniza o impacto imediato — e, paradoxalmente, reduz a pressão política.



Calamidades naturais podem ser inevitáveis. A negligência no planejamento urbano, a permissão para ocupações em áreas de risco e a ausência de políticas habitacionais eficazes, não.


O céu desaba. A cidade alaga. A encosta cede. E, mais uma vez, a responsabilidade institucional tenta escorrer junto com a água — quase sempre sem manchete proporcional ao tamanho do desastre.

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