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Entre a impunidade e o discurso fácil: a sociedade que terceiriza a culpa

POR CARLOS DE MELLO MARQUES


O Brasil vive um dilema que finge ser complexo, mas é apenas covarde: endurecer as leis para adolescentes que tiram a vida de outras pessoas ou manter tudo como está, embalado por discursos mornos e estatísticas seletivas. Enquanto o debate se arrasta, corpos se acumulam e a responsabilidade some — como se a morte tivesse sido um acidente administrativo.



A retórica oficial insiste em tratar o homicídio cometido por adolescentes como um “fracasso coletivo”, expressão elegante para diluir a culpa até que ela não pese sobre ninguém. O agressor vira símbolo social, a vítima vira número, e o Estado lava as mãos com a eficiência de quem já se acostumou ao sangue seco no chão. O resultado é um sistema que protege o infrator com zelo ideológico e abandona a sociedade com indiferença prática.





Pior: há uma conivência silenciosa do eleitor. O mesmo cidadão que clama por segurança nas redes sociais é aquele que vota — ou se omite — ao eleger políticos que jamais pisaram numa comunidade dominada pelo medo, mas decidem que punir é “retrocesso”. Do alto de seus gabinetes climatizados, decretam que responsabilizar é desumano, enquanto a população aprende, na marra, que viver é um risco cotidiano.


Não se trata de negar políticas sociais ou prevenção — esse é o álibi preferido do debate preguiçoso. Trata-se de admitir que sem consequência não há justiça, e sem justiça não há comunidade. Manter leis frouxas não é humanismo; é conveniência. É a escolha de um Estado que prefere preservar narrativas a preservar vidas.


Ao final, a pergunta que ninguém quer responder permanece: quando um adolescente mata e o sistema falha deliberadamente em responsabilizar, quem é o verdadeiro cúmplice? O jovem que apertou o gatilho ou a sociedade adulta que, pelo voto e pela omissão, decidiu que a leniência era uma política aceitável? O silêncio, nesse caso, não é neutro — é editorial.

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