Entre o Boleto e o Beach Club: o retrato agridoce da classe média e baixa carioca
- Revista Real Notícias

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Na cidade onde a paisagem é cartão-postal, mas a rotina é carnê parcelado, o comportamento social virou um misto de sobrevivência, espetáculo e negação coletiva.
POR CARLOS DE MELLO MARQUES

O Rio de Janeiro sempre vendeu ao mundo a imagem de leveza, mas basta descer do mirante para encontrar uma sociedade que ri alto para não chorar no débito automático. Entre a classe média espremida e a classe trabalhadora exausta, construiu-se um estilo de vida onde a aparência grita e a realidade sussurra — geralmente porque está sem fôlego.
A lógica é simples: se a vida está difícil, pelo menos o story tem que parecer fácil. A cultura do “merecimento imediato” virou religião urbana. Não importa se o salário mal dura 20 dias — o importante é que o fim de semana tenha foto no rooftop, drink fluorescente e legenda motivacional copiada de algum coach que também está devendo o IPTU.
O carioca de classe média sofre de um fenômeno curioso: sente-se rico no shopping e pobre no mercado. Parcela o celular em 12 vezes, mas reclama do preço do feijão como se tivesse sido traído pessoalmente pelo agronegócio. Vive num limbo psicológico onde o padrão de vida é europeu no Instagram e latino-americano no extrato bancário.
Já a classe trabalhadora, que segura a cidade nas costas, aprendeu a transformar cansaço em ironia. Pega três conduções, enfrenta ônibus lotado, calor de 40 graus e ainda arruma energia para sorrir — não por felicidade, mas por teimosia existencial. O problema é quando a exaustão vira normalidade e o improviso vira política pública não oficial.
O “jeitinho” deixou de ser traço cultural simpático e virou ferramenta de sobrevivência. É gato na luz, é taxa “por fora”, é favor que substitui direito. Ninguém confia no sistema, então todo mundo cria o seu próprio. O resultado? Uma sociedade onde a regra é desconfiar e a exceção é funcionar.
Na política, a indignação é sazonal. Escândalo revolta por 48 horas — até surgir um vídeo engraçado, um jogo decisivo ou um feriado prolongado. A revolta carioca tem prazo de validade e compete diretamente com a programação da praia.

E há também o culto à esperteza: ser correto é virtude até virar desvantagem. Quem fura fila é “malandro”, quem paga imposto é “otário”, e quem tenta fazer tudo certo é visto como ingênuo. A ética virou artigo de luxo, exposto na vitrine, mas fora do orçamento moral coletivo.
No meio disso tudo, sobra pouco espaço para planejamento de longo prazo. O presente é urgente demais. Sonhar é caro, organizar é cansativo, e o futuro parece sempre um problema para a próxima gestão, o próximo mês ou a próxima encarnação.
Mas há uma contradição bonita — e trágica — nessa história: apesar de tudo, o carioca ainda ajuda, ainda ri junto, ainda divide o pouco que tem. A solidariedade sobrevive onde o Estado falha. O problema é que boa vontade não substitui estrutura, e carisma não paga conta.
O Rio continua maravilhoso nas fotos aéreas. Aqui embaixo, entre o boleto vencido e a vista deslumbrante, a sociedade segue equilibrando dignidade, ilusão e resistência — tudo ao mesmo tempo, tudo parcelado, sem juros aparentes e com uma fatura emocional que ninguém sabe quando vai vencer.



































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