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A Imprensa de Lado: Quando a Notícia Abdica da Verdade e Abraça a Torcida

Por Carlos de Mello Marques


Tem algo muito irritante — e até desanimador — em abrir um site de notícias e já saber, nas primeiras linhas, qual é o “lado” do texto. Antes mesmo dos fatos aparecerem, você sente a intenção. Não é informação: é torcida organizada.




Hoje, muita gente lê jornal já com o pé atrás. E não é por acaso. De um lado, tem veículo que parece panfleto ideológico. Do outro, tem portal que mais parece gabinete de campanha. A matéria já nasce com opinião pronta. O repórter não investiga para descobrir — investiga para confirmar o que quer dizer.

 

E o leitor percebe.

 

Percebe quando o texto pesa a mão dependendo de quem está envolvido. Quando um político aliado “erra”, mas o adversário “comete escândalo”. Quando um protesto é “ato democrático” ou “baderna”, conforme a simpatia do redator. Quando a manchete grita mais do que explica.

 

No fim das contas, fica tudo com cara de manipulação. E isso cansa.

 

A pessoa comum, que acorda cedo, trabalha, paga imposto e só quer entender o que está acontecendo no país, se vê no meio de uma guerra narrativa. Cada lado puxando a corda para si. Cada veículo defendendo sua bolha. E a verdade? Vai ficando em segundo plano.

 

A pergunta é simples: para que serve um meio de comunicação?

 

Deveria servir para informar com clareza. Para explicar os dois lados. Para fiscalizar poder — qualquer poder. Para ajudar o cidadão a formar sua própria opinião, e não empurrar uma pronta.

 

Quando a imprensa perde a credibilidade, perde sua razão de existir. Vira só mais uma voz barulhenta nas redes sociais. E o barulho, a gente sabe, não esclarece nada.

Sem credibilidade, um veículo vira apenas mais uma voz no ruído. E ruído, sabemos, não esclarece — apenas cansa.

 

Talvez o maior desafio do jornalismo contemporâneo não seja tecnológico nem financeiro, mas moral: recuperar a coragem de contrariar a própria bolha. Porque, no fim das contas, um meio de comunicação que não inspira confiança deixa de cumprir sua função pública. E quando a imprensa falha nisso, quem perde não é a esquerda nem a direita — é o leitor.

 

Veja este exemplo:

Na mesma avenida, dois relatos opostos: entre aplausos e vaias, a verdade parece desfilar sozinha — e sem carro alegórico.


A presença de um político como Luiz Inácio Lula da Silva na Marquês de Sapucaí virou quase uma alegoria perfeita do nosso jornalismo atual.


É como se duas pessoas estivessem assistindo ao mesmo desfile, na mesma avenida, sob o mesmo céu — mas cada uma usando um fone de ouvido diferente.


De um lado da arquibancada, a imprensa descreve aplausos calorosos, povo animado, clima de consagração. Parece final de campeonato: o político entra em cena e a plateia vibra. Do outro lado, a narrativa muda completamente: vaias ensurdecedoras, constrangimento, rejeição popular. Quase um desfile interrompido por protesto.



A cena é a mesma. O som, aparentemente, também. Mas o “volume” escolhido para cada lado é diferente.

É como um copo no meio da mesa. Para um veículo, ele está meio cheio — símbolo de apoio popular. Para outro, meio vazio — retrato da insatisfação. E nenhum deles parece interessado em dizer simplesmente: houve aplausos e houve vaias. Porque isso não serve tão bem à torcida.


A Sapucaí, que deveria ser palco de samba, vira palco de narrativa. E o leitor, que não estava lá, depende da lente de quem conta a história.


E jornalismo que não inspira confiança deixa de ser jornalismo. Vira marketing político com crachá de repórter.

 

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