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Inteligência Artificial e idosos: quando o futuro avança e deixa os mais velhos para trás

A Inteligência Artificial já governa silenciosamente a rotina moderna, mas para milhões de idosos ela não chega como inovação — chega como exclusão. Enquanto empresas celebram algoritmos “inteligentes”, parte significativa da população envelhece diante de telas que não explicam, não acolhem e não esperam. A promessa de facilidade vira labirinto digital.


POR CARLOS DE MELLO MARQUES


Na saúde, a IA é vendida como revolução: exames analisados em segundos, monitoramento remoto, previsões clínicas. Na prática, o idoso continua dependendo de aplicativos confusos, cadastros intermináveis e sistemas que falam em códigos. A tecnologia que deveria cuidar passa a exigir habilidades que muitos nunca precisaram ter ao longo da vida.


Bancos e serviços públicos adotaram a automação com entusiasmo, mas sem pudor social. Caixas eletrônicos substituíram atendentes, centrais telefônicas viraram robôs impacientes e aplicativos bancários se tornaram portas giratórias para quem não domina o toque certo na tela. O resultado é cruel: idosos constrangidos, inseguros e cada vez mais vulneráveis a golpes digitais — justamente em um ambiente que deveria protegê-los.

As redes sociais, movidas por algoritmos, prometem conexão, mas entregam confusão. Idosos são bombardeados por desinformação, anúncios enganosos e conteúdos manipulados, enquanto as plataformas lucram com cliques e tempo de tela. Não há pedagogia, apenas extração de dados. A IA aprende rápido; o usuário mais velho, não tem essa opção.



O discurso oficial insiste que “a tecnologia é para todos”, mas a realidade mostra que ela foi desenhada para jovens, rápidos e permanentemente conectados. Poucas empresas investem em interfaces realmente inclusivas, com linguagem clara, botões visíveis e comandos simples. Incluir custa. Excluir é mais barato.


A maior ironia é que a IA poderia ser uma aliada poderosa do envelhecimento digno: ajudar na memória, garantir segurança, facilitar a comunicação, ampliar a autonomia. Em vez disso, vem sendo usada como atalho para cortar custos, reduzir atendimento humano e transferir responsabilidades para quem menos condições tem de assumi-las.


Enquanto o futuro é celebrado em eventos de tecnologia, muitos idosos seguem pedindo ajuda para pagar uma conta, marcar uma consulta ou simplesmente entender o que apareceu na tela. A Inteligência Artificial avança, mas a inteligência social parece ter ficado offline.


Se não houver regulação, educação digital e compromisso ético, a IA não será símbolo de progresso — será apenas mais uma ferramenta sofisticada para aprofundar desigualdades. E, desta vez, com interface moderna e humanidade mínima

 



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