Diplomas na parede, ignorância nas urnas
- Carlos de Mello Marques

- há 6 dias
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O Brasil se orgulha de números educacionais crescentes, mas continua tropeçando no básico da cidadania
Por Carlos de Mello Marques

O Brasil nunca teve tantos diplomados. Nunca houve tantos cursos superiores, especializações e certificados circulando como símbolos de sucesso pessoal. Ainda assim, quando o assunto é política, o país segue refém da desinformação, do achismo e da repetição automática de slogans. O contraste é gritante: a escolaridade sobe, mas a consciência política patina.
A promessa era simples: mais educação levaria a uma sociedade mais crítica, participativa e exigente. A realidade, porém, desmonta esse discurso. O que se vê é uma população capaz de resolver equações complexas ou dominar jargões técnicos, mas que não sabe diferenciar os poderes da República, desconhece o papel do Legislativo e trata política como torcida organizada.
Parte do problema está na própria escola. O sistema educacional brasileiro forma profissionais, não cidadãos. Ensina a passar em provas, mas não a questionar o poder. Produz diplomas em série, enquanto evita debates que estimulem pensamento crítico, leitura de realidade e confronto de ideias. O resultado é uma instrução estéril, incapaz de gerar consciência social.
Nesse vácuo, a desinformação prospera. Redes sociais viraram salas de aula paralelas, onde memes substituem dados, vídeos editados valem mais que fatos e a mentira bem contada vence a verdade mal explicada. Não é falta de acesso à informação — é falta de preparo para interpretá-la. E nem o diploma mais caro parece imunizar contra isso.
A herança política brasileira também cobra seu preço. Décadas de autoritarismo, clientelismo e corrupção normalizaram o cinismo. O mantra “todo político é igual” funciona como desculpa perfeita para a alienação. Reclama-se muito, cobra-se pouco e vota-se mal. A indignação vira espetáculo, não ação.

Enquanto isso, o debate político segue restrito a bolhas. Linguagem técnica demais para quem está fora, simplificada demais para quem quer entender de verdade. A política se afasta do cidadão, e o cidadão aceita esse afastamento com uma mistura perigosa de arrogância e ignorância.
O resultado aparece nas urnas e fora delas: escolhas baseadas em emoção, messianismo, medo ou puro ressentimento. Governantes ruins não surgem por acaso — são eleitos, reeleitos e defendidos com convicção por uma população que confunde opinião com conhecimento.
O Brasil prova, todos os dias, que educação sem pensamento crítico é maquiagem social. Diploma não é sinônimo de consciência. Sem formação política séria, sem incentivo ao debate e sem compromisso com a verdade, continuaremos com um país cheio de títulos acadêmicos e uma democracia frágil, barulhenta e mal compreendida.
No fim, a pergunta incômoda permanece: de que adianta um povo escolarizado se continua politicamente analfabeto?



































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