Masculinidade em xeque e os desacertos de um feminismo que perdeu o freio
- Carlos de Mello Marques

- 20 de jan.
- 2 min de leitura
Atualizado: 20 de jan.
Continuando o artigo anterior sobre : Crise da masculinidade e a sensação de uma sociedade em declínio
Por Carlos Marques

O debate sobre a chamada “crise da masculinidade” não pode ser compreendido isoladamente. Ele é parte de um fenômeno mais amplo, impulsionado por transformações culturais aceleradas e por uma vertente do feminismo que, ao abandonar o equilíbrio, passou a operar mais como força de confronto do que como instrumento de justiça social. O resultado é um ambiente de permanente tensão, no qual o homem é frequentemente tratado não como indivíduo, mas como suspeito em potencial.
Ao longo de décadas, o feminismo exerceu um papel relevante ao denunciar abusos, desigualdades legais e violências reais. Esse legado é inegável. O problema surge quando a pauta deixa de buscar equidade e passa a adotar uma lógica de antagonismo. Em muitos discursos contemporâneos, o homem não é visto como parceiro na construção social, mas como obstáculo a ser neutralizado.
A noção de “masculinidade tóxica” tornou-se um rótulo conveniente. Em vez de servir para criticar comportamentos claramente abusivos, passou a ser usada como categoria ampla, capaz de enquadrar desde a agressividade até a simples assertividade. Liderança vira opressão, competitividade vira violência simbólica e autoridade vira autoritarismo. O efeito colateral é a criminalização cultural do masculino.
Parte do feminismo atual parece ignorar uma verdade básica: sociedades não se sustentam apenas pela desconstrução. Ao atacar sistematicamente os papéis masculinos tradicionais — provedor, protetor, referência — sem oferecer substitutos funcionais, cria-se um vazio. E vazios sociais raramente permanecem neutros; eles geram desorientação, ressentimento e conflito.
Os números refletem isso. Homens lideram estatísticas de suicídio, abandono escolar, dependência química e isolamento social. Ainda assim, esse sofrimento é frequentemente minimizado ou tratado como consequência merecida de um “privilégio histórico”. A empatia, tão exaltada no discurso progressista, parece ter limites bem definidos quando o sofrimento é masculino.
Enquanto isso, muitas mulheres são empurradas para uma narrativa contraditória: cobradas para ocupar todos os espaços, assumir todas as responsabilidades e, ao mesmo tempo, lidar com relações cada vez mais frágeis e com a ausência de figuras masculinas maduras e comprometidas. O discurso que prometia libertação acaba, paradoxalmente, produzindo sobrecarga.

O erro central não está na busca por igualdade, mas na radicalização ideológica. Ao transformar o feminismo em dogma e o homem em inimigo, perde-se a capacidade de diálogo e de autocrítica. Nenhuma sociedade se sustenta quando metade de seus membros é educada para se envergonhar de sua própria identidade.
A masculinidade não é, por natureza, um problema a ser extirpado. Quando saudável, ela oferece estrutura, proteção, estabilidade e direção — valores essenciais a qualquer civilização. Da mesma forma, o feminino não se fortalece ao enfraquecer o masculino, mas ao caminhar ao seu lado em bases equilibradas.
Se há, de fato, uma sociedade em declínio, talvez a causa não esteja apenas em velhos padrões ultrapassados, mas também na incapacidade contemporânea de reconhecer que justiça não se constrói pela demonização de um lado. O futuro exigirá menos slogans, menos guerra cultural e mais maturidade coletiva — algo que parte do feminismo moderno, até agora, parece relutar em oferecer.
...Continua...



































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