Muitos diplomas, pouca cidadania: o vazio da educação brasileira
- Carlos de Mello Marques

- há 3 dias
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POR CARLOS DE MELLO MARQUES
Da alfabetização capenga às universidades cheias de jargões, o país coleciona certificados enquanto falha em formar gente capaz de entender o próprio voto.

O Brasil construiu um sistema educacional que adora parecer moderno, mas morre de medo de ser profundo. Da educação básica à universidade, a sensação é de uma longa esteira de produção de diplomas onde o conteúdo vai sendo substituído por siglas, modismos pedagógicos e expressões importadas que soam importantes — tipo “Call MAX”, “soft skills”, “metodologias ativas” — mas que, no fim, não explicam nem o preço do feijão nem o funcionamento do Congresso.
Na base, o problema começa cedo. A escola que deveria alfabetizar para o mundo mal consegue alfabetizar para o texto. Crianças avançam de ano sem compreender o que leem, decoram fórmulas sem entender lógica e aprendem a repetir “respostas certas” sem jamais serem estimuladas a fazer perguntas certas. Forma-se o aluno treinado para a prova, não para a vida.
O currículo é inchado de conteúdos que passam rápido demais e rasos demais. História vira lista de datas. Geografia vira mapa colorido. Português vira caça a erro gramatical. Filosofia e sociologia, quando existem, são tratadas como enfeite exótico — interessantes, mas “não prioritárias”, como se pensar fosse um luxo e não uma necessidade básica de qualquer democracia.
Aí o estudante chega ao ensino médio, essa terra de ninguém onde se promete “protagonismo juvenil” enquanto se entrega ansiedade, confusão curricular e um funil brutal de desigualdade. Fala-se em projeto de vida, mas não se ensina como funcionam impostos, leis, orçamento público ou o papel de um vereador. O jovem aprende a montar um pitch, mas não entende o que está em jogo numa eleição.
Na universidade, o verniz fica mais caro e o vazio, mais sofisticado. Cursos lotados de apresentações em PowerPoint, termos em inglês e debates cheios de performance, mas pobres em base sólida. Discute-se “inovação disruptiva” com naturalidade, mas poucos conseguem explicar como uma política pública é criada, financiada e fiscalizada. Forma-se o profissional “pronto para o mercado”, mas não o cidadão pronto para a urna.
O resultado é uma população escolarizada no papel e desarmada na prática. Gente que sabe repetir bordões de rede social, mas não distingue um projeto de lei de um decreto. Que vota por raiva, por meme ou por carisma, mas raramente por compreensão de propostas. Não por burrice — mas por falta de formação crítica estruturada ao longo de toda a vida escolar.
Enquanto isso, o sistema segue se parabenizando por índices, metas e relatórios coloridos. Celebra-se o acesso, mas se evita falar de qualidade. Multiplicam-se diplomas, MBAs e certificados, mas o debate público continua raso, emocional e facilmente manipulável. O país que sonha em ser potência ainda não conseguiu ensinar sua população a ler um gráfico, interpretar um orçamento ou desconfiar de uma promessa fácil.
Educar para o trabalho é importante. Educar para a tecnologia também. Mas educar para a cidadania é o que sustenta todo o resto. Sem isso, o Brasil seguirá formando especialistas em “Call MAX” e analfabetos políticos funcionais — gente apta a operar sistemas complexos, mas incapaz de entender o sistema que decide o rumo da própria vida.
E aí, de quatro em quatro anos, o espanto se repete nas urnas. Como se o problema começasse no eleitor — e não na sala de aula.



































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