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Punição como Atalho: quando o Estado troca política pública por vingança


Sempre que o Brasil entra em colapso moral, a classe política revela sua vocação mais sincera: desistir. Incapaz de governar, planejar ou prevenir, o Estado recorre ao velho truque da punição como espetáculo. Reduzir a maioridade penal, defender a pena de morte e internar compulsoriamente dependentes químicos não são soluções — são confissões públicas de fracasso.


A redução da maioridade penal é o retrato mais cruel dessa covardia institucional. O Estado abandona a criança, falha na escola, some da periferia e depois reaparece apenas para punir. Primeiro nega direitos, depois cobra responsabilidade. É o mesmo poder público que não garante merenda, professor ou segurança, mas exige maturidade penal aos 16 anos. Não se trata de justiça; é vingança seletiva contra quem nasceu do lado errado da cidade.


A pena de morte, defendida com entusiasmo por quem nunca enfrentou o sistema penal brasileiro, beira o delírio autoritário. Em um país onde provas desaparecem, processos são manipulados e a cor da pele ainda define sentenças, dar ao Estado o poder de matar é institucionalizar o erro como política. Não é justiça severa — é assassinato burocrático com carimbo oficial. A falência do Judiciário não pode ser compensada com execução.

Já a internação compulsória de dependentes químicos é o retorno explícito do higienismo social. Não se quer tratar, quer-se esconder. O dependente é reduzido a lixo urbano, algo a ser removido para que a cidade “funcione”. Trancar pessoas à força vira política pública porque cuidar dá trabalho, custa dinheiro e não rende discurso fácil. É o abandono travestido de compaixão.




Essas propostas têm uma raiz comum: o desprezo pelas causas. Não se investe em educação, saúde mental, moradia, emprego ou prevenção. Em vez disso, constrói-se cadeia, cemitério e manicômio. É a lógica do Estado preguiçoso, que prefere punir efeitos a enfrentar origens.


A punição vira fetiche. A violência, um palanque. O medo, uma estratégia eleitoral. Não se governa para resolver problemas, governa-se para canalizar ódio. E o ódio, como sempre, escolhe alvos previsíveis: jovens pobres, pretos, periféricos, doentes.


No fundo, essas ideias não expressam força — expressam desistência. Um Estado forte educa. Um Estado fraco mata, prende e interna. E ainda chama isso de ordem.


O Brasil não vive uma crise de leis brandas. Vive uma crise de ausência estatal. E enquanto insistir em trocar política pública por vingança, continuará produzindo exatamente aquilo que diz combater: mais violência, mais exclusão e mais cadáveres — físicos ou sociais.


A conta chega. E nunca para quem aplaudiu o castigo.

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