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Da Luta por Existir ao Direito de Mandar

Como a pauta homossexual saiu das ruas e entrou

no altar do intocável



POR CARLOS DE MELLO MARQUES


A geração dos anos 80 não teve militância confortável. Teve medo, teve pancada, teve silêncio forçado e teve vergonha imposta. Para o homossexual daquela época, não existia manual de proteção institucional nem plateia solidária. Existir era afronta. Amar era risco. Falar era luxo. Não havia glamour, só sobrevivência. E talvez por isso mesmo aquela geração soubesse exatamente o valor da liberdade — inclusive a liberdade de ouvir o que não agrada.


Décadas depois, a homossexualidade virou pauta premium. Saiu da marginalidade direto para o centro do marketing, da política identitária e da moral pública. O problema é que, no caminho, a luta por igualdade foi sequestrada por um discurso que não tolera contestação. O que antes era reivindicação virou ordem moral. O debate foi substituído por catecismo.


Hoje, não basta respeitar o indivíduo homossexual. É preciso ajoelhar diante do discurso oficial. Discordar não é mais opinião: é pecado. Questionar excessos não é reflexão: é violência. Ironizar não é crítica: é ódio. Criou-se um sistema perfeito onde qualquer objeção é automaticamente criminalizada no tribunal da virtude. Não se discute ideias, exterminam-se reputações.


A homossexualidade, que por décadas lutou para deixar de ser tratada como desvio, agora flerta perigosamente com o status de dogma secular. Um dogma que exige adesão total, linguagem controlada e reverência constante. Quem não acompanha o script vira inimigo público, ainda que defenda direitos civis básicos, ainda que nunca tenha discriminado ninguém. O problema não é o preconceito — é a desobediência.


A geração dos anos 80 queria direitos. A atual, em parte barulhenta e bem posicionada, quer prerrogativas simbólicas. Quer blindagem contra crítica, imunidade contra debate e autoridade moral automática. Direito virou instrumento de poder. Combater discriminação virou desculpa para exercê-la sob nova embalagem. O oprimido de ontem, em certos discursos, assumiu com gosto o papel de censor de hoje.


A ironia é grotesca: um movimento que nasceu combatendo o autoritarismo agora reproduz sua lógica com entusiasmo. Onde antes havia repressão conservadora, hoje há cancelamento progressista. Onde antes havia medo de falar, hoje há medo de discordar. A diferença é estética — o método é o mesmo. Silenciar, constranger, punir.


A geração atual, criada na lógica do aplauso instantâneo e da validação permanente, parece incapaz de lidar com fricção. Precisa de consenso artificial, linguagem esterilizada e concordância obrigatória. O dissenso virou ameaça existencial. O resultado é uma pauta frágil, histérica, dependente de vigilância constante para não desmoronar sob o peso das próprias contradições.


Ao transformar a homossexualidade em identidade sagrada, o discurso militante não fortalece a causa — a enfraquece. Afasta aliados, alimenta ressentimentos e oferece munição gratuita a reacionários que agradecem o radicalismo alheio. Nenhuma luta sobrevive quando troca razão por intimidação e diálogo por chantagem moral.


A geração dos anos 80 lutou para ser parte da sociedade. Parte da militância atual parece satisfeita em governá-la simbolicamente, ditando o que pode ser dito, pensado e questionado. Em nome da diversidade, constrói-se um pensamento único. Em nome da liberdade, ensaia-se uma nova censura — mais perfumada, mais instagramável, mas igualmente autoritária.


No fim, a pergunta que fica é simples e incômoda: quando uma causa precisa calar para se sustentar, ela ainda é uma luta por liberdade — ou apenas mais uma forma de poder travestida de virtude?

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